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Brexit: partido de May está cada vez mais dividido

Por Alfredo Valladão

Não se entra em briga que não se pode ganhar. Quando assumiu o governo a primeira-ministra britânica Theresa May declarou que “Brexit é Brexit”. Ela prometeu tirar a Grã-Bretanha da União Europeia, mas mantendo todas as vantagens do acesso ao mercado único sem nenhuma das obrigações.

Só que esse sonho de uma espécie de Cingapura vivendo do resto da Europa que nem sanguessuga, não tem a mínima chance de acontecer. Em vez de dividir, o Brexit fortaleceu a unidade do continente.

A Comissão Europeia foi taxativa: a negociação sobre o futuro das relações depende de um acordo prévio sobre os termos do divórcio. Depois de quase um ano de tratativas, ameaças, choro e ranger de dentes, Theresa May acabou aceitando as três condições impostas: 50 bilhões de euros para cobrir os compromissos da Grã-Bretanha com o orçamento comunitário, pesadas garantias para os milhões de cidadãos europeus que vivem na ilha e sobretudo, a proibição de criar ume fronteira econômica entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte.

As quimeras dos partidários do Brexit já bateram no primeiro paredão: a questão irlandesa. O governo de Dublin deixou bem claro que jamais toleraria o restabelecimento de uma fronteira de verdade com a Irlanda do Norte (que faz parte do Reino Unido). Ninguém está fim de relançar a guerra entre as duas Irlandas. A única solução para evitar controles fronteiriços é que o Norte funcione com as mesmas regras comerciais, econômicas e legais do que o resto da União Europeia.

Só que os irlandeses do Norte também não querem saber de uma fronteira “dura” entre eles e o Reino Unido. Mas como estar dentro e fora da Europa ao mesmo tempo sem se transformar no maior corredor de contrabando do planeta? Sobra só uma saída: sem encontrar um jeitinho – que ninguém sabe qual é – a Grã-Bretanha terá de manter um “alinhamento completo com as regras  do mercado único e da união aduaneira”, como estabelece o comunicado da última cúpula dos líderes europeus. Nada mais nada menos do que a manutenção, de fato, dos britânicos na União Europeia. Os comentaristas ingleses já estão gozando: o Brexit é sair por uma porta e entrar pela outra...

Acordo final pode levar anos

E isso é só o aperitivo, as condições preliminares para começar a negociar um acordo final – e infinitamente mais complicado – que vai levar anos. Thereza May sabe disso e já pediu o estabelecimento de um período de transição de dois anos depois da saída oficial da Europa no começo de 2019. Um período onde tudo fica como dantes. Mas ainda falta negociar os termos dessa solução transitória que não muda nada.

Pior ainda para o governo de Londres: os europeus decidiram que só vão finalizar um acordo comercial e econômico depois da saída definitiva do Reino Unido. Bota mais alguns aninhos nisso! E se daqui a alguns anos, Londres ainda tiver apetite para romper com as regras do mercado europeu, Bruxelas já avisou que a alternativa seria um acordo igual ao que foi feito com o Canadá: livre-comércio de bens, mas quase nada em serviços. Uma solução catastrófica para a indústria britânica de serviços financeiros, a joia da coroa econômica do Reino.

Enquanto isso, o partido conservador da primeira-ministra está cada dia mais dividido. Os lobbies econômicos não param de pressionar a favor de um acordo com a Europa o mais “soft” possível. E uma parte crescente da opinião pública começou a entender que os partidários do Brexit venderam sonhos impossíveis.

Eleitores arrependidos

As sondagens mostram um aumento considerável de eleitores “arrependidos” por terem acreditado que poderiam voltar às glórias do Império Britânico e seu “esplendido isolamento” sem custos. Não quer dizer que seria possível voltar atrás e anular o voto. A perspectiva são negociações sem fim, de anos e anos, sem que nada aconteça. Tudo isso par chegar num beco sem saída? Cadê o pragmatismo dos ingleses?

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