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Em 2018, EUA devem adotar política do "cada um por si"

Por Alfredo Valladão

Crônica de passagem de ano é sempre um sacrifício a Janus, o antigo deus romano bifronte, com uma face voltada para o passado, a outra para o futuro. Hora de balanços e oráculos. E fazer predições é difícil, sobretudo quanto ao futuro... O consolo é saber que no fim de 2018 ninguém estará interessado nos seus erros ou acertos.

Em 2017, na chamada “grande política” internacional, boa parte dos velhos equilíbrios geoestratégicos do século 20 se desmancharam. Existia uma certa previsibilidade nos cálculos do jogo de xadrez entre os grandes polos de poder mundial. Mas esse jogo está sendo atropelado pela nova revolução social e econômica que globalizou territórios, populações, economias, e culturas.

As novas tecnologias da informação e da produção estão metamorfoseando os modos de produzir, consumir, comunicar e pensar. Uma mudança profunda e drástica, tanto quanto a revolução industrial do começo do século 20. Não podia deixar de impactar a política.

Nos Estados Unidos, Donald Trump revelou a ruptura entre os polos econômicos e sociais prósperos e inovadores, a os territórios mais pobres, parados, sem futuro. Populações urbanas diversificadas e cosmopolitas das costas Leste e Oeste, contra cidadãos rurais ou periurbanos que se sentem engolidos pela novidade e a globalização. Pequenos brancos do interior, que sonham em voltar para os anos 1950 e 1960. E não importa que essa idade de ouro seja uma ilusão.

"America First"

O slogan “America First”, bateu em cheio. Os perigos vêm de fora: as provocações da Rússia autocrática e falida de Vladimir Putin e um novo conflito geopolítico no Oriente Médio depois da derrota do grupo “Estado Islâmico” com essa ânsia saudosista.

Durante o ano, o magnata-presidente, multiplicou as bravatas, mas o único resultado tangível foi o voto de uma reforma tributária radical, que no final das contas vai penalizar ainda mais essa população branca marginalizada. Trump está aprendendo que não dá para ressuscitar o modelo econômico do século passado. Porém uma coisa mudou: os Estados Unidos não estão mais dispostos a garantir os equilíbrios geopolíticos internacionais e as instituições multilaterais.

Agora é cada um por si, e a Casa Branca quer utilizar a imensa potência americana para impor relações bilaterais ao resto do mundo. O dito “sistema internacional” perdeu o seu avalista em última instância e a América só intervirá em causa própria. Senão houver ameaça direta aos Estados Unidos, os outros que se virem.

A rebelião das regiões esquecidas pela nova realidade socioeconômica global, também desestabilizou a Europa. O Brexit britânico, assim como movimentos nacionalistas e saudosistas estão ameaçando meio século de construção da paz e do mercado único europeu.

Mas a eleição de Emmanuel Macron na França, abertamente favorável à integração europeia, foi vista como uma tábua de salvação para todos aqueles que querem reconstruir a União Europeia e adaptar suas sociedades ao novo modelo econômico global do século XXI. Apesar dos riscos de fragmentação, 2018 tem chances de ser o ano do renascimento econômico e político europeu.

Quanto ao polo geopolítico da Ásia-Pacífico, o futuro está nas mãos do Partido comunista chinês. A China decolou graças à globalização industrial do final do século XX. Mas sobreviver no meio da nova revolução da comunicação e da inovação permanente são outros quinhentos.

Para manter o poder do partido e a paz social interna, o PCC vai ter que encontrar outra receita para continuar crescendo. Mas isso passa por pesadas reformas liberalizantes que também ameaçam a posição dos dirigentes. Entre a cruz e a caldeirinha, Xi Jinping optou pela repressão interna e bravatas nacionalistas na política externa.

A rebordosa é que vizinhos preocupados, como Japão, Índia, Austrália ou Vietnam já pensam em alianças contrárias, e que aumentam as tensões regionais, na península coreana e no mar da China meridional. Uma grande crise militar regional é uma perspectiva pouco alvissareira para o resto do planeta. 2018 será que nem montanha russa: quem pode pode, quem não pode se sacode! Feliz Ano para todos os ouvintes!

*Alfredo Valladão, da Universidade Sciences Po, publica uma crônica de geopolítica às segundas-feiras na RFI

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