rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês

Irã Manifestações Redes Sociais

Publicado em • Modificado em

Irã: protestos sem liderança levantam suspeitas de manipulação das redes

media
Manifestação de estudantes na Universidade de Teerã, no sábado, 30 de dezembro. AFP

Desde 2009, quando o Movimento Verde levou milhões de pessoas às ruas em protesto contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o Irã não passava por uma onda tão violenta de manifestações contra o regime. Pelo menos dez pessoas já morreram nos conflitos entre a polícia e os manifestantes desde quinta-feira, 28 de dezembro. Até agora, porém, ninguém surgiu como líder do movimento, celebrado por alguns, visto como suspeito por outros. Afinal, em tempos de notícias falsas e manipulações pelas redes sociais, o que está realmente acontecendo no Irã?


A primeira manifestação aconteceu na quinta-feira, em Mashhad, segunda maior cidade do Irã, na região nordeste do país, próxima à fronteira com o Afeganistão. Centenas de pessoas saíram às ruas gritando palavras de ordem contra o governo do presidente Hassan Rouhani, considerado incapaz para resolver os problemas econômicos do país.

Segundo imagens de vídeo divulgadas pelas redes sociais, os manifestantes gritaram "Morte a Rouhani", mas também "Não ao Hamas, não ao Hezbollah, minha vida é no Irã", no que parecia uma crítica aos compromissos internacionais do regime com as causas regionais.

Depois que os protestos se repetiram na sexta-feira, nunca reunindo mais do que centenas de manifestantes em outras cidades do país, o governo advertiu a população, pedindo que ela se afastasse de “manifestações ilegais”. Até então, mais de 50 pessoas já haviam sido detidas.

No sábado, milhares de pessoas tomaram as ruas em passeatas em defesa do governo. Mas isso não impediu que os manifestantes voltassem a se reunir no domingo, incluindo os estudantes da Universidade de Teerã.

“Os slogans gritados pelos estudantes da Universidade de Teerã, no domingo, são muito significativos. Eles diziam: ‘Reformador-Conservador, o jogo acabou!’. Isso quer dizer que os manifestantes, que, na minha opinião, representam a grande maioria do povo iraniano, não serão mais enganados pela dissimulação do regime. Eles consideram que todas as facções são responsáveis pela situação catastrófica do país. Por isso, nós escutamos os gritos de morte a Rouhani, e morte a Khamenei, o líder supremo, que são duas figuras opostas, que pertencem a diferentes facções do poder”, explica Afchine Alavi, porta-voz do Conselho Nacional da Resistência Iraniana, uma facção da oposição iraniana no exílio.

Questões econômicas ou políticas?

As manifestações, no entanto, parecem ter um viés muito mais econômico do que político. O Irã nunca conseguiu se recuperar das dificuldades provocadas pelas sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos por conta do seu programa nuclear. O desemprego afeta hoje 12% da população ativa, e a inflação é de 10%, após ter chegado a 40% com o governo anterior, segundo números oficiais.

“As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos têm impedido grandes investimentos estrangeiros no país, sobretudo por parte de empresas europeias. Por isso o presidente Rouhani não tem sido capaz de cumprir suas promessas eleitorais, que se baseavam na melhoria da situação econômica, como, por exemplo, a criação de milhões de empregos para os jovens”, opina Azadeh Khian, professora de ciências políticas da Universidade Paris Diderot.  

“A outra parte do problema é estrutural. A economia iraniana é uma economia rentista. Os Guardiões da Revolução, assim como outras instituições, se beneficiam da exploração do petróleo, em detrimento da maioria da população. Agora até a classe média está passando por um processo de empobrecimento. Assim, os que estão manifestando nas ruas hoje estão lá, em primeiro lugar, por razões econômicas e sociais, e, somente em segundo lugar, por reivindicar a democracia”, conclui Khian.

Manipulação pelas redes sociais?

Desde a inauguração do governo de Donald Trump, seu secretário de Estado, Rex Tillerson, não tem escondido a sua insatisfação com a política externa iraniana, sobretudo a interferência de Teerã em vários conflitos na região – nas guerras civis do Iêmen e da Síria e na luta contra o grupo Estado Islâmico no Iraque.

Por isso, nessa época de notícias falsas e ingerência externa em políticas internas através da manipulação das redes sociais, há quem se pergunte quem está por trás das manifestações no Irã. A pergunta surpreende, sobretudo, quando ela parte de um dos líderes do Movimento Verde que abalou o país em 2009.

“Não há militares nas ruas. Há muitos policiais no centro de Teerã, mas, de resto, a situação parece normal. A classe média das zonas urbanas não tem demonstrado interesse em participar dessas demonstrações. Nenhuma corrente do setor reformista está apoiando os protestos”, explica o economista Said Leylaz, que participou do movimento de 2009 contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

“Na verdade, sequer sabemos quem está por trás das manifestações atuais. Pode ser que elas sejam provocadas por uma briga de facções políticas dentro do próprio regime. Por isso, eu não acho que seja um movimento sério como aquele do Movimento Verde, em 2009. Dessa vez, as manifestações começaram em Mashhad, a capital iraniana da lavagem de dinheiro. A maior parte dos membros do governo local não apoia a política financeira e monetária do governo de Rouhani. Então, essas ações na rua podem ser uma tentativa de golpe de Estado contra o seu governo”, sugere Leylaz.