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Governo turco é acusado de limpeza étnica na fronteira com a Síria

Por RFI

Turquia intensifica caça interna e operação externa contra alvos considerados terroristas pelas autoridades do país e agora também gera crise com o Exército americano na região. Nesta semana, cerca de trezentas pessoas foram presas em território turco por criticar a nova ofensiva de Ancara no norte da Síria.

Fernanda Castelhani, correspondente da RFI em Istambul

Os críticos à nova operação militar turca afirmam que o intuito é, na verdade, fazer uma limpeza étnica, já que o território de Afrin, que fica em solo sírio na fronteira com a Turquia, não seria centro de treinamento de terroristas. Apenas um município com a maior população curda do distrito de Aleppo.

Até 2012, o local fazia parte da república síria, mas, com a guerra civil no país, passou a se autodeclarar uma região autônoma curda ocupada por um grupo armado que atua na Síria e que a Turquia denomina terrorista: as Unidades de Proteção Popular, que, por sua vez, têm ligações com outro grupo armado curdo já inimigo antigo no território turco, o PKK.

O governo de Ancara afirma que há 10 mil terroristas em Afrin que, pela geografia montanhosa, funciona como um refúgio natural perfeito e seria parte do “corredor terrorista” que os curdos querem formar na fronteira. O Ministro da Defesa turco, Nurettin Canikli, afirmou que a operação militar duraria apenas 15 dias se não fosse a preocupação do país com os civis, e que nenhum inocente teria sido morto. Por outro lado, de acordo com ele, foram abatidos 649 terroristas. Mas o Observatório Sírio de Direitos Humanos informa que 55 civis morreram desde o início da ofensiva.

Conflito com os EUA

O grupo que a Turquia ataca hoje em Afrin é atual aliado dos Estados Unidos, o que poderia gerar um conflito militar americano e turco na região. No discurso, os dois aliados da OTAN têm sido bem incisivos. Mas a Turquia sabe que, apesar da relação estremecida, é melhor contar com a parceria da Casa Branca no que se refere ao futuro da Síria, ao plano de contenção de refugiados e ao manejo da influência russa na região. Só que, atualmente, os Estados Unidos estão no caminho da Turquia. O Exército de Ancara tem como próximo alvo a cidade de Manbij, exatamente onde estão os americanos, que já foram enfáticos: vão manter as tropas no local.

O governo de Washington enviou soldados para lá em março do ano passado para treinar e conter confrontos entre as forças turcas e rebeldes curdos. Em artigo ao jornal “The New York Times”, o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, escreveu que “a dependência americana das Unidades de Proteção Popular é um erro quando os Estados Unidos já contam com um parceiro capaz como a Turquia”.

Também reiterou no texto o papel turco no combate ao grupo Estado Islâmico, empenho que, na realidade, nunca convenceu a comunidade internacional, uma vez que o trânsito livre de terroristas islâmicos na fronteira neutralizaria o avanço curdo. Apesar da pressão, o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, minimizou a tensão com Washington dizendo que, por enquanto, o foco é somente a cidade de Afrin.

Preocupação na comunidade internacional

O clima no país diante da operação militar na vizinha Síria é de caça às bruxas. Quem discorda da política vigente é visto como traidor do país. As últimas vítimas foram 11 diretores da União de Médicos da Turquia (TTB) pelas críticas que o sindicato fez contra a ação em Afrin. O presidente Tayyip Erdogan acusa o grupo de ser simpatizante do terror, sendo que o comunicado dos médicos declarava que a ofensiva representa um “problema de saúde pública".

As redes sociais também estão na mira do setor da polícia de combate a crimes cibernéticos. O Ministério do Interior anunciou que já deteve, sob acusação de propaganda terrorista, 311 pessoas que se manifestaram em seus perfis na Internet contra a operação militar. Também foram presos integrantes do principal partido da etnia curda (HDP) por classificarem a operação como invasão. 

O líder do principal partido de oposição (CHP), Kemal Kılıçdaroglu, acredita que o governo turco usa a invasão militar para fins eleitorais e até antecipar para este ano as eleições presidenciais e parlamentares previstas para o ano que vem. Alfinetou o atual presidente lembrando que a operação militar está sendo feita pelo povo, não por um único partido, e que esta é uma batalha real de toda a Turquia, com consequências para toda a região.
 

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