rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
O Mundo Agora
rss itunes

Competição entre as três maiores potências nucleares está de volta

Por Alfredo Valladão

A volta da geopolítica está na moda. E pelo visto, os Estados Unidos de Trump encamparam a ideia. A última versão da estratégia de segurança nacional declara, sem rodeios, que a “competição entre grandes potências está de volta”. E dá nome aos bois: a Rússia e a China, tratadas de “revisionistas”, são qualificadas de ameaça principal.

Essa premissa de uma nova Guerra Fria assenta numa análise simples e grossa: Moscou e Pequim teriam decidido “promover economias menos livres e menos justas, aumentar suas forças militares e controlar informações e dados de maneira a reprimir suas sociedades e alargar sua influência”. Portanto, não se trata só de um desafio militar. A nova visão americana ressuscita os fantasmas do século XX, um mundo bipolar onde os conflitos abrangiam o campo militar, mas também as economias, os modelos políticos e até as ideias e as informações.

Claro, essa nova estratégia de segurança não é só um novo arroubo dos partidários do “America First”. Russos e chineses não escondem seus programas de modernização e expansão rápidas de suas forças armadas, para competir diretamente com os americanos. Vladimir Putin não tem vergonha de utilizar a força de maneira unilateral e indiscriminada – na Geórgia, Ucrânia, Síria ou na anexação da Crimeia.

Sem falar nas provocações insistentes nas fronteiras europeias, na transgressão do tratado de desarmamento de mísseis intermediários de 1987, nas ameaças veladas de usar armas atômicas, e na ciberguerra ofensiva. Em Pequim, Xi-Jinping acelera o upgrade dos equipamentos das forças armadas e ameaça os países vizinhos apoderando-se de territórios no mar da China meridional e intensificando as provocações navais na região.

Reconstrução de regimes totalitários

Não há dúvida de que os dois autocratas, russo e chinês, querem tomar conta do poder, controlando as populações e as informações, e reprimindo qualquer forma de oposição. É uma lenta reconstrução de regimes totalitários, com velhos nacionalismos substituindo as ideologias do século XX.Só que deslizar novamente para uma Guerra Fria global pode ser mais perigoso do que há cinquenta anos atrás. Os três grandes protagonistas são potências nucleares, junto com a França, a Inglaterra, a Índia, o Paquistão e Israel.

É muita gente com o dedão no botão vermelho, e mais gente ainda que quer chegar lá – como a Coréia do Norte ou Irã. Sem falar no Japão ou na Alemanha que têm capacidade para isso, caso se sentirem diretamente ameaçados. Além disso os arsenais atômicos estão cada dia mais sofisticados e precisos.

O Pentágono já anunciou a intenção de se dotar de ogivas nucleares de baixa potência que seriam instaladas na ponta de misseis de cruzeiro ou de foguetes de alcance mais curto. Voltamos ao velho debate dos anos 1980 sobre o perigo de construir armas atômicas “táticas” que poderiam ser usadas localmente em caso de conflito, sem necessariamente provocar uma apocalipse nuclear “estratégica”.

Mundo multipolar

Uma catástrofe sem nome para os territórios e populações presentes nas zonas de enfrentamento, mas que resguardaria a dissuasão da “destruição mútua garantida” para as três grandes potências. Mas com uma vantagem para os Estados Unidos: tão longe das principais zonas de conflito potenciais, eles não teriam que se preocupar com guerras convencionais perto de casa que poderiam “escalar” para o uso de armas atômicas “táticas”. Uma maneira de reforçar também as capacidades de dissuasão convencional de suas forças expedicionárias.

Nada disso é boa notícia para o resto do mundo. Um mundo multipolar, dominado pela competição política e econômica de três grandes potências atômicas e vivendo com a ameaça de enfrentamentos nucleares locais, obriga todos os outros – pequenos e médios – a se alinhar. Não sobra espaço para posturas independentes, salvo aquelas toleradas pelos grandões. Como escrevia Tucídides, há mais de 2.400 anos: “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”. Em bom português: “Quem pode pode, quem não pode se sacode”.

Fake news: entre censura e controle da veracidade os inimigos da democracia navegam com facilidade

Ao mexer com Jerusalém, Trump brincou com fogo num paiol de de fervores espirituais

Separatismos são motivados pela desconfiança das populações nos governos centrais

Histerias nacionalistas como a da Catalunha revelam desconfiança em governos nacionais