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Israel não vai tolerar hegemonia do Irã no Oriente Médio

Por Alfredo Valladão

Começou seriamente a nova guerra para saber quem vai mandar na Síria. E, por tabela, no Oriente Médio. Depois de interceptar um drone iraniano, Israel deslanchou no território sírio um violento bombardeio aéreo contra forças iranianas e bases do regime.

Jerusalém não tem a mínima vontade de meter a mão na cumbuca síria, mas já avisou que não pode aceitar uma presença militar do Irã na sua fronteira norte. Nem portos, nem bases e nem aeroportos iranianos, nem milícias xiitas treinadas e comandadas pela Guarda Revolucionária do regime islâmico, nem usinas iranianas para fabricar mísseis de alta precisão. Para o Estado judeu, o Irã representa uma ameaça mortal. Portanto dá um boi para não entrar, mas uma boiada para não sair.

Teerã foi o grande beneficiário da implosão do Oriente Médio. Depois do 11 de setembro, os iranianos deram uma mãozinha ao “ianques” no Afeganistão. Em contrapartida, eles agora controlam a minoria xiita dos hazaras.

Hoje, os iranianos podem contar com um  contingente significativo de xiitas afegãos sustentando o regime de Bashar Al Assad. Quando os americanos acabaram com o regime de Saddam Hussein, o Irã se viu livre de seu pior inimigo: na década de 1980, o Iraque sunita havia lançado uma guerra sangrenta que custou mais de um milhão de mortos iranianos.

Agora, governos xiitas substituíram a minoria sunita no poder em Bagdá. O regime iraquiano não é uma criatura de Teerã, mas a influência iraniana é imensa. A recente vitória da coalizão ocidental e das forças iraquianas contra os terroristas do grupo “Estado Islâmico” não teria acontecido sem o apoio das milícias xiitas iraquianas comandadas por oficiais iranianos.

Hoje, o Irã circula pelo território do Iraque, abrindo uma verdadeira “via de trânsito” para a Síria e o Líbano.

Graças ao Hezbollah, o Irã conseguiu salvar o regime de Damasco

A guerra de Bashar Al Assad contra a revolta de sua própria população sunita foi mais uma oportunidade. Graças ao seu aliado libanês, o Hezbollah xiita, e às milícias xiitas trazidas do Iraque ou do Afeganistão, o Irã conseguiu salvar o regime de Damasco.

Claro, os bombardeios russos foram cruciais, mas sem combatentes no chão para conquistar territórios, nada feito. E o regime sírio não tinha mais tropas. Hoje, Bashar Al Assad depende absolutamente dos soldados do Hezbollah e das milícias comandadas pela Guarda Revolucionária iraniana.

Pela primeira vez, Teerã pode celebrar uma vitória estratégica que ambicionava há muito tempo: um corredor militar, da fronteira iraniana às praias do Líbano. Um trunfo que faz do Irã a potência regional dominante no Oriente Médio.

Claro, Israel não pode tolerar tamanha ameaça. E os Estados Unidos, a Europa e os regimes sunitas árabes também não podem aceitar esse começo de hegemonia iraniana na região. Washington e vários aliados europeus já declararam que o acordo nuclear com o Irã não basta.

E que falta um novo tratado para proibir que Teerã continue desenvolvendo mísseis balísticos de grande alcance, ameaçando o Estado judeu e até a própria Europa. A recente parada militar em Teerã para comemorar a revolução islâmica de 1979 apresentou um míssil capaz de voar 2.000 quilômetros: nada mais nada menos do que uma “banana” para os ocidentais.

Enquanto isso, Moscou ficou entre a cruz e a caldeirinha. Putin precisa dos iranianos para manter o regime aliado de Damasco, mas também não quer, de jeito nenhum ter as poderosas forças armadas israelenses como inimigo. Os russos não têm condições nem de estabilizar, nem de reconstruir a Síria.

A ideia é sair dessa ratoeira, mas mantendo suas posições na região. Complicado. E ainda têm que fazer média entre Al Assad, a invasão turca contra o enclave curdo no norte do país, e as forças armadas curdas apoiadas pelos americanos.

Vem muita bala por aí, e a coisa não vai ser resolvida só com bombardeiros Sukhois. Putin está condenado às denguices da turma do “deixa disso”. Para ele é um perigo. Mas que remédio?

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz um crônica de política internacional para a RFI  às segundas-feiras

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