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Depois de escândalo da ONG Oxfam, Médicos Sem Fronteiras admite 24 casos de abuso sexual

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A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciou nesta quarta-feira que confrontou 24 casos de assédio ou abuso sexual em 2017 dentro de sua organização, num momento em que acusações de estupros visando empregados da Oxfam. Sede da Oxfam em Londres. REUTERS/Simon Dawson

A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciou nesta quarta-feira (14) que comprovou a ocorrência de 24 casos de assédio ou abuso sexual em 2017 dentro de sua organização, num momento em que acusações de exploração sexual e estupros visando empregados da Oxfam e a ONU abalam a reputação do setor humanitário em todo o mundo.  


A MSF, criada na França, mas que tem 40 mil funcionários permanentes em todo o mundo, indicou em um comunicado que recebeu 146 denúncias ou alertas. Desses, "40 casos foram identificados como casos de condutas duvidosas" e, entre essas 40 denúncias, 24 foram casos de assédio ou abuso sexual", segundo a ONG. Destes 24 casos, 19 pessoas foram demitidas, acrescentou a organização. "Em outros casos, os funcionários foram sancionados por medidas disciplinares ou suspensões", aponta o comunicado.

De acordo com MSF, no entanto, os 24 casos relatados não incluem "casos diretamente avaliados por equipes em campo e não relatados à sede" operacional em Paris. O número real de casos de assédio ou abuso sexual pode, portanto, ser maior.

"Embora os relatos de abuso estejam crescendo constantemente, a MSF está ciente de que os abusos cometidos na instituição são subestimados", reconhece a associação. A MSF traz essa revelação quando o setor humanitário é abalado por revelações sobre a ONG britânica Oxfam. Vários funcionários da poderosa confederação de cerca de vinte ONGs presentes em mais de 90 países são acusados de estupros durante missões humanitárias no Sudão do Sul, abusos sexuais na Libéria e, entre outras coisas, de recorrerem a prostitutas no Haiti, bem como no Chade.

A diretora-adjunta da Oxfam, Penny Lawrence, renunciou na segunda-feira devido ao escândalo no Haiti, que data de 2011. O caso está ligado a eventos ocorridos durante uma missão humanitária por ocasião do terremoto que deixou mais de 200 mil mortos, em 2010.

A Médicos Sem Fronteiras é uma associação médica humanitária internacional, criada em 1971 em Paris por médicos e jornalistas. Intervém em áreas afetadas por conflitos, epidemias ou desastres naturais. A associação, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1999, garante sua independência obtendo recursos quase exclusivamente de doações privadas, e está presente em 71 países, incluindo Iraque, Iêmen, República Democrática do Congo e Sudão do Sul.

Escândalo sexual de ONG humanitária Oxfam se estende até Sudão do Sul e Libéria

Depois do Haiti e do Chade, o escândalo em torno da ONG Oxfam se espalhou com novas acusações de estupro contra alguns de seus funcionários no Sudão do Sul e de abuso sexual na Libéria.

Um antigo soldado convertido ao setor humanitário, o belga Roland van Hauwermeiren está no cerne do escândalo no Chade e no Haiti. Novas informaçéoes mostram problemas também com a ONG Merlin - agora Save the Children - na Libéria em 2004. Demitido pela Oxfam por seu comportamento, Hauwermeiren foi contratado por outra ONG, a Action Against Hunger.

Como isso é possível? Um ex-diretor de prevenção interna da Oxfam aponta a falta de controle e denunciou na televisão britânica a existência de uma "cultura de abuso sexual em alguns escritórios", relatando estupros ou tentativa de estupros no Sudão do Sul e agressão a menores voluntários nas lojas da ONG no Reino Unido.

Na noite de terça-feira (13), a atriz e cantora britânica Minnie Driver renunciou ao cargo de "embaixadora" da Oxfam, a primeira celebridade a dar as costas para a organização. Ela se declarou "destruída" ao pensar nas "mulheres utilizadas pelas pessoas enviadas para ajudá-las".

Um ambiente favorável

Para Mike Jennings, diretor de Estudos de Desenvolvimento na Escola de Estudos Orientais e Africanos de Londres, as situações de urgência são um ambiente propício ao abuso. "Vocês têm pessoas extremamente vulneráveis, que perderam tudo muitas vezes, e outras que têm acesso a muitos recursos, o que lhes confere poder", disse.

Jennings acredita que as ONGs devem conciliar dois objetivos contraditórios, entre a necessidade de estabelecer procedimentos de controle interno e as expectativas dos doadores. "Muitas pessoas dizem que gastam muito dinheiro na administração, e não durante ações no terreno", diz ele. Mas para evitar esse tipo de comportamento, você precisa configurar todo tipo de controle. E isso custa dinheiro", analisa.

Megan Nobert, uma jovem mulher que foi drogada e estuprada em 2015 por um de seus colegas, enquanto trabalhava para um programa das Nações Unidas no Sudão do Sul, criou uma organização, Report the abuse, para lutar contra esse tipo de comportamento. Ela também denuncia uma cultura de estupro em algumas ONGs.