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Em Guta, na Síria, ocorre uma das carnificinas mais cínicas da história

Por RFI

O Conselho de Segurança da ONU votou, por unanimidade, um cessar-fogo humanitário na Síria. Mas por enquanto não adiantou nada. Os moradores da Guta, bairro periférico de Damasco, continuam sofrendo bombardeios intensos dos aviões e helicópteros de Bashar Al Assad, apoiados pela aviação russa.

Na última semana, morreram mais de 500 adultos e crianças, indiscriminadamente. Hospitais, escolas, centros de atendimento médico e bairros residenciais estão sendo deliberadamente alvejados e destruídos.As pessoas vivem nos porões, sem comida, sem água, sem tratamentos. O regime de Damasco e seus aliados são contumazes em matéria de chacinas. Até a ONU decidiu que não tem condições de continuar contabilizando as vítimas na Síria: por volta de 500.000 mortos e metade da população deslocada ou exilada.

Uma das carnificinas mais cínicas da história moderna. Mas fora muito gogó, ninguém está disposto a tentar seriamente pôr um fim ao morticínio e à destruição completa das grandes cidades do país pelas suas próprias autoridades. A Síria vai ficar na memória da humanidade como uma mancha indelével, um exemplo de covardia e pusilanimidade da dita “comunidade internacional”. Não só por parte dos regimes autoritários, como a Rússia e o Irã, cúmplices direto de Bashar Al Assad. Mas também por parte do mundo ocidental que se diz defensor dos direitos humanos e das ações humanitárias.

Rússia fez tudo para não atrapalhar ofensiva síria

Alguns, inclusive a própria representante americana, ainda pensam que a unanimidade do voto na ONU é um passo à frente para restabelecer a credibilidade do Conselho de Segurança, paralisado há anos pelos vetos sistemáticos de Moscou. Ledo engano. A Rússia fez tudo para que a proclamação de um cessar-fogo não atrapalhasse a ofensiva militar de seu aliado sírio.

O rascunho original da resolução pedia a suspensão dos bombardeios na Guta por um período de 30 dias para que as organizações humanitárias pudessem intervir rapidamente. Também estipulava claramente que isto deveria acontecer em poucas horas. Os russos passaram três dias bloqueando e negociando estes termos para aguar as exigências e deixar tempo para que a aviação do regime pudesse arrasar o bairro para ocupá-lo sem encontrar resistência.

É a mesma estratégia utilizada na conquista de Aleppo – a segunda cidade do país – em dezembro de 2016, quando os tapetes de bombas russas deixaram ruínas fumegantes, que Al Assad recuperou sem custo.

Na ONU, desta vez, para evitar um novo veto russo, os outros membros do Conselho acabaram aceitando um apelo ao cessar-fogo generalizado na Síria inteira e não só na Guta. Uma exigência impossível de ser implementada, sobretudo porque também concordaram em excluir do texto as ofensivas militares contra os chamados “grupos terroristas”.

Ora, para o regime de Damasco, todos os opositores são considerados “terroristas”, e portanto Al Assad pode perfeitamente continuar bombardeando quem quiser. Mais cínico ainda: não há mais tempo definido para o começo do cessar-fogo. A resolução agora, só diz que tem de ser feito “sem demora”. Tradução russo-síria: quando Damasco tiver liquidado qualquer opositor e qualquer perspectiva de vida na Guta.

A Rússia precisava de uma resolução para poder se safar da acusação de cumplicidade de crimes de guerra e contra a humanidade. E jogou bem, intimidando os ocidentais. Estes foram patéticos. Nenhum deles quer se meter no imbróglio sírio, e sobretudo se for só para defender valores humanos. Uma boa resolução, mesmo inócua, lava a alma, sem ter que assumir responsabilidades. Todo mundo fecha os olhos e deixa os sírios morrer.

O problema é que tanta covardia acaba custando caro. Os massacres e intervenções na Síria já criaram as condições de uma nova guerra. Rússia, Turquia, Irã, Israel, Arábia Saudita e Estados Unidos já começaram a se enfrentar por meio de aliados locais. A guerra local já está se transformando em guerra entre potências. E o barril de pólvora vai explodir na cara de todos. Até de quem acha que não tem nada a ver com isso.

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