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Bashar al-Assad Síria Tragédia Guerra

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Para a ONU, Bashar Al-Assad promove "apocalipse" na Síria

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Soldados russos e sírios próximos de Damasco, em 2 de março de 2018. REUTERS/Omar Sanadiki

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos não poupou termos ácidos sobre a guerra na Síria, ao apresentar seu relatório anual nesta quarta-feira (7). No documento, apresentado durante um ineficaz cessar-fogo organizado pela Rússia em Guta Oriental, Damasco é acusado de promover o "apocalipse" no país.


"Este mês, Guta Oriental foi descrita pelo secretário-geral [da ONU] como um inferno na terra", afirmou o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad al Hussein, ao apresentar seu relatório anual ao Conselho de Direitos Humanos da organização em Genebra. "No próximo mês, ou no seguinte, será outro lugar em que as pessoas enfrentarão o apocalipse - um apocalipse proposital -, planejado e executado por indivíduos do governo, aparentemente com o apoio total de alguns de seus aliados estrangeiros", reiterou.

Para Hussein, é "urgente" pausar as violências para que o conflito sírio seja analisado pelo Tribunal Penal Internacional. No entanto, a proposta tem poucas chances de se concretizar, já que a instituição depende do Conselho de Segurança, no qual a Rússia continua protegendo a aliada Síria.

Conflito entra "em fase de horror"

O conflito na Síria começou em março de 2011 com a repressão de manifestações pró-democracia. Com o passar dos anos se tornou complexo, com a participação de vários personagens, entre rebeldes, o grupo Estado Islâmico, a coalizão internacional - liderada pelos Estados Unidos - e a Rússia. Em sete anos de guerra, mais de 340 mil pessoas morreram.

"Agora o conflito entra em uma nova fase de horror", afirmou Zeid, que denunciou "o enorme derramamento de sangue em Guta Oriental e a escalada da violência na província de Idlib, que deixa dois milhões de pessoas em perigo".

Segundo o correspondente da RFI em Genebra, Jérémie Lanche, críticas como essas são raras na ONU porque irritam os países ocidentais. O alto comissário, aliás, já adiantou que não disputará um segundo mandato para o cargo.

Investigadores denunciam forças russas

Na terça-feira (6) foi a comissão de investigação da ONU sobre a Síria que denunciou o ápice da violência no país em sete anos de guerra. "Nas últimas semanas, a situação em Idlib, Guta ou Afrin, que chamávamos de bombas-relógio em nossos últimos relatórios, explodiu. Isso gera mais sofrimento aos civis, midiatizados em todo o planeta. E, mais uma vez, o mundo não é capaz de agir", declarou seu presidente, Paulo Pinheiro.

A comissão que Pinheiro lidera garante ter provas da responsabilidade das forças russas no bombardeio de um mercado próximo a Alepo, em novembro, que deixou quase 80 mortos. A investigação também acusa do regime de Bashar Al-Assad de ter realizado um ataque químico em Guta, também em novembro.

Catástrofe humanitária em Guta

Na última segunda-feira (5), um comboio humanitário conseguiu entrar em Guta pela primeira vez desde novembro. A região, dominada por rebeldes, está cercada pelas forças sírias, apoiadas pela Rússia. Desde a semana passada, um cessar-fogo foi estabelecido, mas combates e bombardeios continuam sendo registrados na região, onde mais de 650 civis foram mortos nos dez dias antes do início da trégua.

Centenas de moradores, mulheres e crianças, tentam escapar da região carregando o que podem em motocicletas ou vans. O ministério russo da Defesa garante que muitos dos insurgentes aceitaram a oferta de Moscou de deixar o local com suas famílias. Mas a informação é classificada como mentirosa por Oussama Al Omari, um militante da oposição síria ouvido pela RFI. Segundo ele, tanto os rebeldes quanto os civis rejeitam o êxodo forçado pelo regime e seu aliado.

Apoiado pela Rússia, o governo sírio insiste em reconquistar esse último bastião rebelde próximo de Damasco. Quase 400 mil pessoas são vítimas de um cerco desde 2013 em Guta Oriental, que provoca a falta de alimentos e de remédios.