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Iêmen crise humanitária

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ONU obtém mais de US$ 2 bilhões em promessas para ajudar Iêmen devastado pela guerra

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O conflito no Iêmen fez dois milhões de refugiados, segundo a ONU. A foto mostra um campo perto de Sana, em março. REUTERS/Khaled Abdullah

A Organização das Nações Unidas (ONU) obteve, nesta terça-feira (3), "mais de US$ 2 bilhões" de promessas de ajuda do total dos US$ 3 bilhões pedidos para socorrer o Iêmen, um país devastado pela guerra há três anos. Hospital da ONG Médicos Sem Fronteiras em Áden tem direção de uma médica brasileira.

 

 


Reportagem dos enviados especiais da RFI a Áden, Murielle Paradon e Boris Vichith

No norte, estão os rebeldes xiitas, os hutis, que controlam a capital Sana. Ao sul, as forças governamentais estão instaladas em Áden, após terem libertado a cidade em 2015.

O conflito já provocou, segundo a ONU, 10 mil mortos, 53 mil feridos e 2 milhões de refugiados, com carência generalizada.

Os combates agora acontecem longe de Áden, mas a cidade portuária ainda guarda as cicatrizes: prédios destruídos e estradas em estado lamentável. Nesse cenário decrépito, o hospital da ONG Médicos Sem Fronteiras é um dos raros a funcionar normalmente. Ele acolhe principalmente os feridos de guerra que chegam das zonas de combate mais ao norte.

Brasileira do MSF dirige hospital

A brasileira Cecília Hirata, diretora do hospital, mostrou as instalações aos jornalistas da RFI: “Aqui é a entrada do hospital por onde chegam as ambulâncias que trazem os feridos e lá é a sala de emergência, onde fazemos os primeiros socorros aos pacientes”.

Num corredor, Gamel al-Gabari toma conta de seus dois filhos, de 7 e 9 anos, deitados em camas, com metade dos corpos enfaixados. O pai, envolto em um xale tradicional, é magro, tem os olhos saltados, e está visivelmente chocado pelo que viveu. Ele vem de Moka, perto da linha de combate. “Um bombardeio aéreo atingiu minha casa. Perdi minha mulher e um filho de 5 anos, perdi tudo, perdi os animais também. Minha mulher estava grávida de nove meses e morreu no bombardeio. Só sei que o ataque veio de um avião, não sei de onde ele vinha exatamente. Meus filhos ficaram feridos com o ataque. Um deles melhorou, graças a Deus, mas o outro continua em recuperação. Estou aqui há mais de duas semanas. Perdi tudo, minha casa, tudo. Não sei o que fazer”, lamenta.  

Feridos chegam todos os dias

Um pouco mais longe, deitado em uma cama, Ahmed Nabil, um jovem de 18 anos, está com a perna engessada, depois da colocação de pinos. Ele chegou há dois meses e meio após ser ferido por bala em Áden. “Estávamos em um grupo de jovens, fumando. Um de nós foi alvo de uma vingança. Um grupo chegou com armas e atirou no rapaz, mas todos ficamos feridos. Tenho também um furo no joelho, levei quatro balas”, conta.

Pacientes como Ahmed chegam todos os dias ao hospital da MSF. O Estado hoje, no Iêmen, é quase inexistente. Em Áden, a guerra abriu espaço para a insegurança. Quase todo mundo anda armado.

“Os pacientes chegam de todas as partes, não só das frentes de combate, o caos é completo”, conta o cirurgião-ortopedista Samuel Boulezaz. “Não há Estado, polícia ou exército nas ruas. Em certos lugares, o clima é de guerra civil”.   

E no meio do caos, as doenças também chegam com velocidade. No ano passado, o cólera atingiu um milhão de pessoas no Iêmen. A epidemia já foi controlada em Áden, mas segundo Cecília Hirata, uma outra poderia surgir por causa do calor e por isso o hospital está se preparando. “Temos kits de emergência caso aconteça uma outra epidemia de cólera. Estamos prontos para essa possibilidade”.

Famílias refugiadas vivem em cabanas feitas de folhas de palmeira na periferia de Áden. RFI/Murielle Paradon et Boris Vichith

Na periferia de Áden, em meio à areia, em tendas construídas com folhas de palmeira, vivem muitas famílias de refugiados. Ahmad Abdallah diz que fugiu com a mulher e seus sete filhos dos combates na cidade de Moka, 200km mais ao norte. Isso há dois anos. “Os rebeldes hutis atiravam contra nós, havia ataques aéreos, minas, não tínhamos nenhum tipo de segurança, por isso fomos embora. Vamos ficar aqui até retirarem as minas ao redor de nossas casas. Conhecemos alguém que morreu por causa de uma mina recentemente”.

Comida escassa

Enquanto esperam, eles sobrevivem como podem. Ahmad Abdallah faz bicos, mas isso não basta para alimentar a família. Sua mãe, Rabsha, uma figura magra envolta em um longo xale negro, se desespera: “Não aguentamos mais. Tínhamos uma casa, agora somos obrigados a pedir esmolas nas mesquitas. Dormimos em cabanas de folhas de palmeira, ao invés de estar em casa. Esta guerra é uma catástrofe para o mundo. O que precisamos, nós, os refugiados, é comer, é tudo, queremos comer!”.

A refeição do dia para a família é arroz, fornecido por uma organização humanitária. Ajuda raríssima, segundo a família, que se sente totalmente abandonada.