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Filha de ex-espião russo sai do silêncio horas antes de reunião na ONU

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Yulia Skripal, 33, foi envenenada junto com seu pai, o ex-espião russo Serguei Skripal, em Salisbury, no Reino Unido, em 4 de março de 2018. Divulgação/Embaixada russa em Londres

Yulia Skripal afirmou que está "cada dia melhor", após ter sido envenenada na Inglaterra com o pai, um ex-espião russo, em 4 de março, deflagrando uma crise internacional e a maior onda de expulsões cruzadas de diplomatas desde a Guerra Fria. Yulia se pronunciou a apenas algumas horas da reunião do Conselho de Segurança da ONU desta quinta-feira (5), dedicada ao assunto.


"Eu acordei há mais de uma semana e estou feliz em poder dizer que me sinto cada dia melhor", declarou Yulia, 33 anos, citada em um comunicado da polícia britânica. Pouco antes, a televisão pública russa havia divulgado uma gravação que seria uma conversa por telefone entre Yulia Skripal e sua prima Viktoria, que mora na Rússia. No áudio, a voz daquela que seria Yulia Skripal afirma que ela e seu pai, Serguei, encontram-se em fase de recuperação, e que ela poderá, em breve, deixar o hospital.

Depois do fracasso da Rússia de convencer a Organização para Proibição de Armas Químicas (Opaq) a pôr fim à sua investigação, o novo corpo a corpo diplomático na ONU nesta quinta, a partir das 16h de Brasília anuncia-se tenso.

O envenenamento dos Skripal em solo britânico em 4 de março deflagrou, desde o dia 14, uma onda histórica de expulsões cruzadas da Rússia e de países ocidentais, envolvendo cerca de 300 diplomatas. Os 60 diplomatas norte-americanos com postos na Rússia expulsos por Moscou embarcavam de volta com suas famílias nesta quinta de manhã.

Acusada por Londres de ser responsável pelo envenenamento de Serguei e Yulia Skripal, na origem de uma das mais graves crises diplomáticas entre Moscou e os países ocidentais desde a Guerra Fria, a Rússia advertiu o Reino Unido de que "questões legítimas" não podem ser ignoradas.

O ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, afirmou que a situação atual do caso Skripal "cria uma ameaça para a paz e para a segurança no mundo". Segundo ele, "o Conselho de Segurança deve examinar essa questão sob todos os aspectos e de maneira objetiva". No dia 14, o Conselho de Segurança das Nações Unidas já havia tido uma reunião de urgência sobre o imbróglio - então convocada por iniciativa do Reino Unido. "Insistimos para que seja realizada uma investigação substancial e responsável", frisou Lavrov, acrescentando que "não será possível ignorar as questões legítimas que nós colocamos na mesa".

Investigação deve ser “transparente”, afirma Rússia

Na quarta-feira (4), a Rússia convocou os Estados-membros da Opaq, sem conseguir convencê-los a engavetar a investigação. Hoje, Lavrov afirmou que a Rússia "aceitaria os resultados de qualquer investigação, desde que fosse transparente e que pudéssemos participar dela de maneira justa". Moscou nega, categoricamente, qualquer ligação com o envenenamento dos Skripal e denuncia "uma provocação" ocidental e "uma campanha antirrussa".

Na Opaq, Moscou propôs, em vão, que a Rússia fizesse uma investigação conjunta com a Grã-Bretanha, mediada pela organização internacional. Apresentada junto com Irã e China, a proposta russa foi classificada como "perversa" e como uma "tentativa de distração" pela delegação britânica. Acabou rejeitada em votação na Opaq. Além disso, a Grã-Bretanha manteve suas acusações contra a Rússia. Já Moscou disse se considerar isenta, sobretudo, após as declarações do laboratório especializado britânico, que analisou a substância usada contra o espião. Segundo essa instituição, tratou-se de Novitchok, um agente nervoso do tipo militar de concepção soviética.

O laboratório reconheceu, porém, não ter provas de que a substância usada contra os Skripal tenha sido fabricada na Rússia, enquanto o ministro britânico das Relações Exteriores, Boris Johnson, sugere o contrário. Segundo a imprensa britânica, os serviços de Inteligência conseguiram determinar a localização do laboratório russo, onde esse agente foi fabricado. A substância estaria sob supervisão do serviço secreto de Moscou.

O presidente russo, Vladimir Putin, apontou que uma substância como a que foi usada em Salisbury poderia ter sido fabricada "em pelo menos 20 países".