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Rússia poderá se beneficiar com saída dos EUA de acordo nuclear iraniano

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O presidente russo Vladimir Putin e seu homólogo iraniano Hassan Rohani em Moscou (2017) REUTERS/Sergei Karpukhin

Apesar de condenar a saída dos Estados Unidos do acordo sobre o programa nuclear iraniano, a Rússia está menos exposta que os europeus às consequências econômicas vindas das sanções americanas. As empresas russas poderão até tirar vantagem da situação.


Segundo analistas, enquanto os europeus fazem de tudo para tentar manter as relações econômicas estabelecidas com o Irã desde o acordo de 2015, os russos estão em uma situação mais confortável. “O acordo e o fim das sanções haviam marcado o retorno das empresas europeias no país. Hoje, elas provavelmente não poderão continuar e isso abre mais espaço para os russos”, afirmou o cientista político Vladimir Sotnikov. “A Rússia tem hoje, mais do que nunca, um caminho livre”, completou.

Moscou e Teerã, que durante muito tempo estiveram em posições opostas, voltaram a se entender com o fim da Guerra Fria. No meio da década de 90, a Rússia aceitou retomar a construção de uma central nuclear em Bouchehr (sul do Irã), abandonada pela Alemanha. Antes mesmo do acordo de 2015, os dois países buscavam reforçar os vínculos comerciais, apesar das sanções em vigor.

“As empresas europeias estão mais presentes no mercado americano, elas precisam se conformar para evitar problemas. Poucas empresas russas estão nos EUA e, com isso, não têm nada a temer” afirma Igor Delanoë, do Observatório franco-russo. “Os russos estão acostumados a trabalhar em um cenário conturbado, tanto do ponto de vista jurídico quanto econômico. Os americanos, sem querer, acabam fazendo com que o Irã volte a estreitar relações com a Rússia e a China” completou o especialista.

Mesmo com a presença de grandes empresas russas, como Loukoïl e Rosneft, na exploração de petróleo, e Rosatom no setor nuclear civil iraniano, a cooperação econômica entre Moscou e Teerã vinha perdendo força. Segundo Delanoë, o comércio bilateral gerou US$ 1,7 bilhões em 2017, ou seja, 20% a menos que no ano anterior e bem abaixo dos US$ 3 bilhões do fim dos anos 2000. Agora a situação deve mudar.

Rússia e China destemidas

Nesta quinta-feira (10) em Teerã, o vice-ministro russo de Relações Exteriores, Sergueï Riabkov, afirmou que os dois países irão continuar cooperando economicamente em todos os setores. “Nós não tememos as sanções", bradou Riabkov. A China, que financia projetos milionários em diversos setores da economia iraniana, também declarou que irá manter “relações econômicas e comerciais normais”.

“Tanto a Rússia quanto a China querem vender aço, bens manufaturados e investir em infraestrutura no Irã. Quanto menor for a concorrência americana ou europeia, melhor será para os dois países” disse Charles Robertson, analista da empresa Renaissance Capital.

O Irã carece de infraestrutura em setores como energia e telecomunicações. “Nessas esferas, a Rússia tem grandes possibilidades de negócio” afirmou Robertson. “Isso pode reforçar a tendência de negociações em rublo entre a Rússia e os países do Oriente Médio, para escapar às transações em dólar, expostas à justiça americana", completou o analista. Outro efeito positivo para a economia russa é a alta do preço do petróleo, que atingiu seu maior valor desde 2014, após o anuncio da saída dos EUA do acordo.

Para os especialistas do banco russo Alfa, as tensões atuais devem manter o valor do barril elevado, o que seria uma “dádiva para o mercado russo”. Para o Estado, com as finanças ligadas intrinsicamente ao petróleo, isso representa um grande aporte financeiro. O que não desagrada o presidente Vladimir Putin, que prometeu grandes obras para desenvolver a economia russa e diminuir a pobreza no país. O primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, orçou em mais de € 100 bilhões o custo total dos projetos anunciados.