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Para Trump, explodir o pacto nuclear com o Irã é também uma mensagem dirigida a Putin

Por Alfredo Valladão

O último cacete de Donald Trump na velha ordem mundial do século XX foi a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã. Essa porrada diplomática também restabeleceu as sanções econômicas contra os aiatolás, que se aplicam a qualquer empresa americana ou estrangeira com negócios no país. Trump está simplesmente impondo brutalmente a sua vontade ao business do resto do mundo.

A nova ordem que está se esboçando não tem mais nada a ver com o antigo multilateralismo, no qual os Estados Unidos se consideravam um primus inter pares num sistema de governança coletiva. Hoje, o objetivo é afirmar a total hegemonia dos Estados Unidos: “America First”. E o resto que se vire. Há 2.500 anos, o historiador grego Tucídides já escrevia: : “os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem”.

O presidente americano está convencido de que o uso unilateral da força – militar e econômica – é a melhor maneira de defender os interesses nacionais e resolver as velhas pendências internacionais – além de agradar seus eleitores que ainda sonham com o Captain  America.

E porque não? As ameaças de guerra nuclear contra o regime da Coréia do Norte redundaram numa espetacular reviravolta nas relações com Kim Jong-un, com sorrisos, gestos de boa vontade e até uma cúpula em Singapura nas próximas semanas. Nada garantido, mas se for possível estabelecer a paz e a desnuclearização da península coreana, Trump vai passar para a História como um grande estadista.

Trump sempre abominou acordo com o Irã

A jogada com o Irã vai pelo mesmo caminho. Claro, o inquilino da Casa Branca sempre abominou o acordo com o Irã (sobretudo porquê foi negociado por Barack Obama). Mas retórica a parte, rasgar o tratado tem pouco a ver com a realidade do programa nuclear de Teerã. A questão central é a consolidação do Irã como potência hegemônica no Oriente Médio.

O regime islâmico pode contar hoje com seus aliados militares libaneses – o Hezbollah xiita –, as milícias internacionais xiitas e a presença da própria Guarda Revolucionária iraniana na Síria, e os grupos paramilitares xiitas no Iraque. Um “arco estratégico”, do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo, absolutamente intragável pela Arábia Saudita e os outros estados sunitas da região, e sobretudo por Israel, cuja fronteira norte está diretamente ameaçada pela forças iranianas e seus aliados locais. Uma guerra aberta entre israelenses e iranianos na região é cada dia mais provável. E pode acabar numa guerra generalizada entre grandes potências nos territórios sírio e libanês.

Rússia está numa sinuca

Trump não está mais a fim de se meter em outra guerra no Oriente Médio. Mas também não tem condições políticas de abandonar o aliado israelense ou de jogar fora a aliança com os sauditas. Quebrar o acordo nuclear é aumentar brutalmente a pressão contra o regime de Teerã para que mude a sua política regional. É também um jeito de torcer o braço de Vladimir Putin.

A Rússia está numa sinuca. Para garantir sua presença na região, o Kremlin tem que manter o regime amigo sírio de Bashar Al Assad. Impossível sem os soldados iranianos e seus aliados xiitas. Por outro lado, quer manter boas relações com o governo de Jerusalém: os russos não tem condições de encampar um enfrentamento militar com Israel que poderia degenerar numa intervenção americana.

Para Trump, explodir o pacto nuclear com o Irã é também uma mensagem dirigida a Putin: ou você ajuda a retirar os militares iranianos da Síria (e em contrapartida, os Estados Unidos garantiriam o atual governo sírio), ou você vai ter que amargar uma guerra geral que pode acabar mal, tanto para Assad quanto para a Rússia.

A ideia é uma super-negociação sob a égide da superpotência americana. A jogada pode até ter uma chance de prosperar, como na Coréia. Mas no Oriente Médio, quase todos os tiros saem pela culatra. Só que Trump está pensando é no seu eleitorado, para ganhar as legislativas de 2018. Questão de vida ou morte para a sua presidência.

 

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