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Após queda de premiê, população mantém protestos na Jordânia contra austeridade

Aos gritos de "preferimos morrer a ser humilhados", milhares de jordanianos estão nas ruas desde a semana passa em protesto contra medidas econômicas do governo. As manifestações levaram à renúncia do primeiro-ministro, Hani Mulki, nesta segunda-feira (4). O Rei Abdullah II nomeou Omar Razzar como novo primeiro-ministro.

Danielle Ferreira, correspondente da RFI em Amã

Os manifestantes são unânimes em uma de suas reinvindicações. Para eles, o que deve mudar é a política implementada, não apenas as pessoas no governo. Um projeto de lei que visa elevar os impostos foi enviado ao parlamento em maio. A proposta seria de cerca de 5% de aumento da taxação sobre a renda de trabalhadores contribuintes, e entre 20 e 40% de aumento para empresas. No início do ano, o governo já havia cancelado os subsídios do pão, o que quase dobrou o preço do alimento. Na última sexta-feira, já em meio a protestos, o Rei Abdullah II ordenou o cancelamento do aumento dos preços de combustível e eletricidade.

A Jordânia enfrenta um momento econômico muito difícil. A dívida pública é estimada em cerca de US$ 38 bilhões, o que corresponde a 95,3% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Em 2016, o Fundo Monetário Internacional aprovou um crédito de cerca de US$ 723 milhões para o país. O objetivo é promover uma reforma econômica e diminuir a dívida pública.

Entretanto, medidas de austeridade são extremamente impopulares neste contexto fragilizado. A taxa de desemprego é de cerca de 18%. As guerras no Iraque e na Síria tiveram grande impacto negativo no comércio com a Jordânia. Além disso, o país recebeu milhares de refugiados nos últimos anos, o que contribui para os gastos. A Jordânia também depende muito de ajuda externa para auxiliar as contas, o que afeta sua política na região. No ano passado, os países do Golfo não renovaram um programa de assistência financeira à Jordânia. O governo dos Estados Unidos se comprometeu a doar mais de US$ 6 bilhões nos próximos cinco anos.

Jovens pedem mudanças

Algumas pessoas expressam uma confiança muito grande na possibilidade de provocar mudanças no país. Havia muitos jovens e famílias com crianças. Leian tem apenas 14 anos e foi a um protesto pela primeira vez. Ela diz que essa “é uma forma de fazer um país melhor”. Já a advogada Nour acredita que os jordanianos deveriam ter o direito de participar da formulação das leis. Ela afirma que, como advogada, sabe “como essa lei vai prejudicar as pessoas. Todos os árabes estão passando por dificuldades”.

Outros são menos otimistas, mas acham que ir para as ruas é uma forma de levantar questões importantes. Kanaan já participou de vários protestos e diz que não acredita que a Jordânia vai conseguir sair desta situação. Para ele, “o problema é que não sabemos quais ferramentas para a mudança e nem como julgar a nova pessoa que vai estar no governo”.

Em 2011, a Primavera Árabe mudou completamente a região. Os acontecimentos nos países vizinhos ecoam nas falas de alguns manifestantes. Yara afirma que “espera que os protestos continuem pacíficos”. Para ela, as pessoas já “estão pagando muito e não têm nada em retorno”. A jornalista Rawan diz que “a Jordânia está pagando o preço pelas suas decisões políticas”. Para ela, primeiro deve-se “acabar com a corrupção, alimentar o crescimento econômico e fazer as mulheres participarem mais da força de trabalho”.

Protestos pacíficos sob forte segurança

Na noite desta segunda-feira (4), havia um forte esquema de segurança com a polícia e o exército na região dos protestos em Amã. No geral, eles vêm ocorrendo de forma pacífica. A agência de notícias do governo emitiu comunicado informando que as forças de segurança estão lidando com os protestos com a máxima restrição. No domingo, o próprio príncipe herdeiro da Coroa conversou com militares. Ele enfatizou a necessidade de se respeitar os direitos e segurança dos manifestantes.

Para algumas das pessoas protestando, isso é uma evidência de que o governo está escutando as exigências da população. Em comunicado, o Rei Abdullah II informou que os cidadãos “têm todo o direito” e que os acontecimentos dos últimos dias o fizeram ter “orgulho de ser jordaniano”. Essa é uma das complexidades do país, pois o próprio Rei é responsável por indicar o primeiro-ministro.

Para Hanadi, que acompanhava o protesto na noite de segunda-feira (4) em Amã, as pessoas de certa forma “vêem o rei como uma pessoa que vai ajudá-los a superar essa situação”. Para ela, se essas manifestações não levarem a alguma mudança, “será necessário uma outra geração frustrada”. Já o jornalista Imad afirmou que acredita que os protestos podem não ser pacíficos para sempre. Ele diz que “ninguém sabe quais são os limites. Se eles forem ultrapassados, tudo pode mudar”.

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