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Universidade Rússia União Soviética

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Criada para formar juventude comunista, universidade russa se abre para o mundo

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Alunos da RUDN entrevistados pela RFI vêm dos quatro cantos do mundo RFI/Silvano Mendes

O que têm em comum o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, o líder das FARC, Timoléon Jiménez, o revolucionário Carlos, o Chacal, e o opositor russo Alexei Navalny? Além de serem figuras contestadoras e contestadas, todos estudaram na RUDN, a Universidade Russa da Amizade dos Povos. Criada em Moscou em 1960 com o intuito de formar a “juventude comunista”, a instituição se afastou aos poucos de seu projeto inicial e atualmente recebe alunos do mundo todo, que buscam uma alternativa para o ensino universitário internacional.


Enviado especial a Moscou

Passados os portais de segurança com detectores de metal e o gigantesco vestiário, indispensável para guardar os pesados casacos necessários para enfrentar o rigoroso inverno russo, o prédio da RUDN é muito parecido com qualquer grande universidade no mundo. Mesmo se a arquitetura soviética é visível, pouca coisa diferencia o campus de seus concorrentes em outros países. No entanto, essa instituição, situada na periferia de Moscou, tem uma particularidade: criada pelo governo da antiga URSS, a RUDN tinha como objetivo inicial ajudar os países que saíam da colonização nas décadas de 1950 e 1960, principalmente no continente africano.

“Nos anos 1960, vários países da África não tinham suas próprias universidades. Então a estratégia era ajudar a educar e formar engenheiros e cientistas”, explica Valeriya Antonova, responsável pela comunicação e professora de russo para os alunos estrangeiros na instituição. “No início, tínhamos apenas algumas centenas de estudantes, mas hoje já são 31 mil alunos, vindos de 155 países”, enumera, orgulhosa da dimensão internacional da instituição.

Frear a influência ocidental na África

A RUDN atrai muitos alunos das antigas repúblicas soviéticas, como Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão e Azerbaijão. Além disso, atualmente os chineses estão entre os estrangeiros mais presentes nos corredores das dez faculdades que formam o campus. Sem esquecer, é claro, dos alunos vindos da África, que perpetuam a tradição instaurada com o projeto original, quando muitos estudantes oriundos de países em desenvolvimento viam na Rússia uma opção de ensino superior. No momento da queda do muro de Berlim, em 1989, cerca de 30 mil africanos ainda frequentavam universidades soviéticas. Muitos deles estudavam na RUDN, na época totalmente patrocinada pelo Kremlin, que tentava frear a influência ocidental na África durante a Guerra Fria.

A Universidade Russa da Amizade dos Povos é uma Torre de Babel na periferia de Moscou RFI/Silvano Mendes

A relação com o continente, aliás, está em toda a parte, inclusive no nome da instituição, alterado em 1961 para se tornar Universidade Patrice Lumumba, em homenagem ao ex-primeiro-ministro do Congo. “Ele foi um dos líderes que lutou pela independência”, lembra Afélio, angolano matriculado em um mestrado de Direito Econômico Público. O aluno, que ganhou uma bolsa de estudos para frequentar a RUDN, disse que se deu conta da importância da instituição apenas quando chegou em Moscou. “Percebi que muitos angolanos e muitos de nossos dirigentes se formaram aqui”, comenta. Não apenas de Angola, mas de todo o continente africano, como os ex-presidentes da Namíbia, Hifikepunye Pohamba, e da República Centro-Africana, Michel Djotodia, só para citar alguns exemplos.

Mas além dessa tradição de formar personalidades políticas, os alunos procuram a RUDN pela qualidade da universidade em várias áreas. “Escolhi estudar aqui porque eles oferecem um bom ensino. Os que passaram pela RUDN se saíram muito bem”, comenta Daviev, estudante em Informática vindo de Guiné Bissau. Já a espanhola Carmen, inscrita em Linguística, se matriculou por causa da reputação do Curso Preparatório, “um dos mais importantes para o aprendizado do russo”. Afinal, dominar a língua é um dos primeiros desafios para os alunos.

Brasileiros começam a se interessar

Como Carmen, a universidade recebe também cada vez mais europeus. “Eles já representam o equivalente dos latino-americanos”, explica Valeriya Antonova. A responsável pela comunicação faz essa comparação por que a América Latina parece estar entre as regiões do mundo de onde a RUDN vem tentando atrair alunos. Segundo ela, cerca de 1000 latino-americanos já estão matriculados e, no início deste ano, um grupo de 15 reitores brasileiros visitou a universidade para discutir a possibilidade de parcerias e intercâmbios em disciplinas científicas. Além disso, em 2017, a Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES) assinou um convênio com a instituição russa para viabilizar a dupla diplomação em mestrados feitos nas áreas de Medicina, Engenharias, Agronomia e Economia.

Atualmente, a maior comunidade de universitários brasileiros na Rússia está em Kursk, quase na fronteira com a Ucrânia, muitos deles estudando Medicina, onde o custo de vida é menor. Mesmo assim, alguns ainda optam pela universidade moscovita. É o caso de Johnatan Santos, que cursou toda sua graduação na RUDN e se prepara para fazer um doutorado em Relações Internacionais na mesma instituição. “Os russos gostam muitos dos brasileiros, que têm uma imagem muito boa por aqui”, conta o aluno, que vive no país há 8 anos.

Os brasileiros da RUDN são conhecidos por procurarem principalmente os cursos de Engenharia. Certamente porque os diplomas nas áreas mais científicas então entre os mais reputados da instituição, que “encoraja essas disciplinas”, come explica Abdou, argelino matriculado em Matemática Operacional. Além disso, sublinha, essas formações são mais baratas. “A minha faculdade, por exemplo, custa US$ 2.200 por ano”. Já no caso do diploma de Relações Internacionais, os alunos que não tiverem bolsa de estudos devem prever US$ 9 mil anuais.

Mas muita gente chega à instituição por meio de parcerias internacionais, que tornam os programas mais acessíveis. É o caso de Lubomir, franco-búlgaro interno em cirurgia Maxilo-Facial, inscrito como parte de uma missão da ONG Médicos Sem Fronteiras. “RUDN é uma das poucas universidades que dão bolsas em Medicina”, explica.

Racismo e clichês

Todos os alunos encontrados pela reportagem da RFI têm histórias para contar sobre os clichês que tinham da Rússia antes de desembarcar em Moscou. “Quando anunciei que vinha para cá, me colocaram medo, dizendo que iriam me matar, que eu seria vítima de crime racial”, conta Christal, estudante de Filologia vinda do Madagascar. “Mas, quando cheguei, descobri que tudo isso não era verdade”.

Mesmo tom do lado de Olívia, gabonesa colega de classe de Christal, que também chegou na cidade com estereótipos em mente, frutos de incidentes no passado, quando alunos africanos denunciavam agressões de cunho racial na cidade. “Os russos têm uma personalidade forte, mas não são racistas”, pondera a jovem.

Daviev (e) Afélio são alunos da RUDN RFI/Silvano Mendes

Já Afélio diz que tudo é uma questão de pedagogia. “O país ficou muito tempo fechado por causa do comunismo. Quando eu cheguei, há cinco anos, alguns russos nunca tinham visto um africano. Alguns pensavam que nós morávamos todos em florestas. Então, às vezes somos pacientes, explicamos, e as pessoas entendem”, comenta o angolano. “É falta de informação”, emenda Daviev. “Alguns só tinham visto negros pela televisão. Quando tocavam na nossa pele perguntavam se tínhamos pintado”, tenta explicar o estudante de Guiné Bissau.

Soft power russo

Além dos choques culturais, poucos fazem alusão ao passado da instituição e de seu viés comunista, em oposição às grandes potências ocidentais. “Esse projeto político foi meio esquecido, mas resta ainda uma vontade de formar uma espécie de elite, que continue fiel à Rússia, e ajudaria a desenvolver a cultura russa no exterior”, comenta Azin, estudante franco-quirguiz matriculado em Ciências Políticas.

O brasileiro Johnatan fez sua graduação na RUDN e começa um doutorado na instituição russa Arquivo Pessoal

Johnatan Santos concorda, frisando que esse soft power parece ser uma das prioridades da política internacional russa em termos de educação. “Claro que sendo formado por aqui você vai criar um laço com a Rússia” e expandir o idioma e a cultura do país no mundo, comenta o brasileiro.

No entanto, os formandos da RUDN não são alheios à imagem nem sempre positiva que o país tem no exterior em termos de política internacional. “Somos todos vítimas dos clichês e dos estereótipos”, ressalta Lubomir, lembrando que a reputação do país onde estuda às vezes afeta a vida dos alunos quando estão com o diploma em mãos. “Quando voltamos para casa temos que nos justificar. As pessoas nos perguntam: porque você foi para a Rússia? Não tem vergonha de ir estudar naquele país, como tudo o que acontece lá? O pior é que geralmente eles não sabem o que acontece de verdade aqui. Então queremos mudar isso com nosso testemunho”, pontua o futuro médico.