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Faltam 115 milhões de mulheres do mundo: aborto de fetos femininos na Ásia explica sequestros de "esposas"

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Na Índia, a maioria das pessoas prefere ter filhos homens. Estima-se que milhões de mulheres deixaram de nascer por causa dos abortos seletivos . ARINDAM DEY / AFP

Segundo informações do Instituto Nacional de Estudos Demográficos da França (Ined), historicamente a proporção entre mulheres e homens se mantém equilibrada, com poucas variações pontuais. Na Ásia, no entanto, um fenômeno chama a atenção dos especialistas: um déficit feminino extraordinário, causado por um combo de fatores culturais longe de serem inócuos. No mundo inteiro, a falta de mulheres chega a 115 milhões. Para entender o caso, a RFI conversou com o demógrafo Christophe Guilmoto, do Centro de População e Desenvolvimento (Ceped) da França, especialista em “seleções sexuais”, e com a jornalista Bénédicte Manier, autora do livro “Quand les femmes auront disparu” (“Quando as mulheres tiverem desaparecido”, em português).


Meio a meio, com poucas variações. Essa sempre foi a porcentagem histórica da quantidade entre mulheres e homens no mundo, um índice biológico importante que pode, a priori, afetar diretamente o sucesso reprodutivo das populações. No entanto, um fenômeno recente ameaça esse equilíbrio: o “female feticide”, em inglês, ou o “feticídio feminino”, que se traduz no ato de abortar massiva e seletivamente fetos do sexo feminino num mundo onde proliferam tecnologias reprodutivas de todo tipo. O fenômeno é recente, embora o ato de preferir filhos homens a mulheres seja uma prática comum que atravessa os séculos no sistema patriarcal asiático, como relatou à RFI a jornalista francesa Bénédicte Manier, que passou um ano pesquisando o assunto na Índia, em 2006.

“Nada mudou. A eliminação de meninas antes mesmo de seu nascimento é um fenômeno que atravessa a sociedade indiana em todas as suas castas e que se estende também a outros países como a China, o Paquistão, Bangladesh”, explica a jornalista. Segundo ela, trata-se de uma condição que, acima de tudo, “estrutura a sociedade indiana”. “Passei meses nas regiões com recorde de eliminação de fetos femininos na Índia, conversei com as famílias, os médicos, as mulheres para entender porque isso acontece e como acontece”, detalhou.

O que mais marcou a jornalista durante sua investigação foi constatar a pressão familiar exercida sobre as mulheres indianas para que elas tenham filhos homens. O fenômeno encontra raízes culturais, mas também financeiras, uma vez que na Índia os pais da noiva arcam com os custos do casamento, além de um dote significativo, que pode “acabar com as economias de todas uma família”. “Nesta sociedade patriarcal, um menino protege o patrimônio, a terra, a casa, o dinheiro. Além disso, no hinduísmo, os homens são os responsáveis por realizar os ritos funerários de seus pais. Então a pressão sobre as jovens vem não apenas de sua própria família, mas da família de seu marido. Uma primogênita é ‘aceitável’, mas o segundo filho homem, no caso, é imperativo”, conta a jornalista. “Encontrei mulheres que abortaram até 10 vezes até terem certeza de que esperavam um filho homem”, diz Manier.

Um grupo de meninas de um centro de aprendizado temporário no campo de refugiados em Uchiprang, perto de Cox's Bazar, em Bangladesh, estuda com um balão inflável que faz parte da "escola em uma caixa" de materiais educativos distribuídos pela UNICEF. LeMoyneUn/UNICEF

A “sociologia de eliminação de fetos femininos” enquanto fenômeno de classe

A eliminação massiva de meninas antes mesmo de nascerem, é, segundo Bénédicte, um fenômeno que surge junto com a emergência social nos anos 1990, quando a Índia conhece uma prosperidade econômica, criando uma classe média de cerca de 300 milhões de indianos. “Esta classe média tem uma grande vontade de consumir e de participar da economia de mercado, então ela precisa economizar seu dinheiro e não gastá-lo, por exemplo, com gigantescos dotes de casamento”, explica Manier.

“Fala-se inclusive em uma sociologia de eliminação dos fetos femininos. As meninas são evitadas sobretudo nas regiões mais ricas, no noroeste da Índia, e em volta das grandes metrópoles. É um fenômeno majoritariamente urbano, comum nos bairros ricos das cidades. Visitei famílias que têm apenas filhos homens, mas esses meninos não conseguem encontrar mulheres para se casarem, e precisam ir busca-las em regiões mais pobres”, relata.

As “preferências” da rica clientela do tráfico de mulheres

O problema, expõe a jornalista, é que apenas os indianos ricos conseguem “comprar”, através de traficantes, uma noiva para seus filhos homens. “São mulheres que vêm de regiões pobres. Uma outra consequência disso é a massa de homens que continuam solteiros, especialmente na classe baixa, porque as únicas mulheres disponíveis são destinadas às famílias ricas”, ressalta. A outra alternativa, segundo Manier, é “comprar” uma mulher que custe “mais barato”.

“É terrível, existe toda uma categorização das mulheres disponíveis. As mais baratas são as de pele mais escura, ou que têm menos educação. Existe uma verdadeira hierarquia quando se compra uma mulher de um traficante. Quanto mais claras, educadas ou da classe alta, mais caras elas se tornam”, relata a jornalista. O papel das tecnologias de contracepção também é determinante neste fenômeno, lembra a escritora. “As ultrassonografias e métodos abortivos menos invasivos que vieram nas décadas de 1960 e 1970 para ajudar no planejamento familiar e na saúde reprodutiva das mulheres, acabaram se virando contra elas na Índia”, relata. “Com a análise do líquido amniótico e da ultrassonografia portátil, além de outras tecnologias, a definição do sexo do feto ficou evidente e as indianas começaram a ser fortemente pressionadas para abortarem os fetos de meninas”, relata Manier.

Seleção sexual: “filhos homens que façam filhos homens”

O demógrafo francês Christophe Guilmoto é um dos especialistas mundiais mais solicitados pela Organização das Nações Unidas para formar pesquisadores sobre o desequilíbrio demográfico entre homens e mulheres no mundo, especialmente na Ásia. Entre as causas e os impactos do que chama de “espetáculo mássico de homens que não encontram parceiras” no continente, ele destaca “o fato da seleção sexual permitir que as pessoas possam praticar a discriminação contra as mulheres antes mesmo delas nascerem”.

“Isso não existia antes, estas escolhas radicais e definitivas. Antes a mulher sofria, claro, discriminação, com efeitos nocivos sobre sua sobrevivência, mas, isso chegada mais tarde em sua vida. Mas com a seleção sexual, elas não têm mais nenhuma oportunidade, nem mesmo de vir ao mundo”, ressalta. O segundo impacto tem a ver com o fato, segundo Guilmoto, de que o sistema onde existe uma preferência pelos filhos homens é o mesmo onde há uma insistência significativa na reprodução masculina, por meio do casamento, o que não existe em outros continentes ou culturas.

A eliminação de meninas antes mesmo de seu nascimento é um fenômeno que atravessa a sociedade indiana em todas as suas castas e que se estende também a outros países como a China, o Paquistão, Bangladesh. JUNI KRISWANTO / AFP

Contrato patriarcal rompido: um tiro pela culatra?

“Não é suficiente apenas ter um filho homem, é necessário que esse filho se case e que ele produza outros filhos”, explica o pesquisador. O sistema se autobloqueia, diz o pesquisador, quando, 20 anos depois, o menino que se tornou adulto talvez não consiga se casar por razões demográficas, sobretudo em países como a Índia e a China. Os déficits de mulheres, segundo Guilmoto, são da ordem de milhões de pessoas do sexo feminino: “Os números são enormes, falamos entre 30% a 40% de homens desta geração que continuarão solteiros ou sozinhos até o fim da vida, principalmente entre os mais pobres”, relata.

“O lado irônico desta história é que o sistema patriarcal, na origem da discriminação das mulheres antes mesmo que elas nasçam, está também na origem do excesso de homens, e desemboca atualmente numa geração de jovens homens que não serão capazes de se casar, e portanto, não serão capazes de concluir o chamado contrato patriarcal, ou seja, casar, ter um filho homem, e casar este filho para ter netos”. No entanto, ressalta o demógrafo, os homens que serão atingidos por esta pane do sistema serão os mais pobres. “Os mais penalizados serão os menos culpados pelo sistema, porque são os ricos que privilegiam majoritariamente a seleção sexual; os pobres continuam a ter mais filhos de ambos os sexos”, conta. “ A única prima de um jovem pobre, por exemplo, vai casar com alguém de uma classe mais alta e vão subir na escala social por meio do casamento”, detalha.

Países do Cáucaso e Brasil: o feticídio feminino através do globo

Guilmoto conta que as políticas públicas de países e de organizações como a ONU têm, na verdade, pouco efeito imediato sobre as populações no continente asiático. “Trata-se essencialmente de decisões familiares, tomadas entre o casal, e a ação do governo, da sociedade civil ou de grupos religiosos são na verdade menos importantes do que as decisões familiares”, explica. No entanto, lembra o demógrafo, “a sociedade se transforma por si mesma”. “Em alguns países asiáticos, como a Coreia do Sul, as mulheres conheceram uma ascensão social e uma mobilidade educacional e profissional sem precedentes”, explica.

O pesquisador lembra que mães de família que antes dependiam de seus maridos hoje possuem a mesma educação que eles e conseguem cada vez mais autonomia. “A marginalização das mulheres na cidade está desaparecendo e a vontade de ter um filho homem começa a sair de moda”, diz Guilmoto. Além de Índia, China, Coreia do Sul e outros países como o Vietnã, nações da Europa do leste reproduzem o mesmo tipo de comportamento patriarcal, como a Albânia, Kosovo, Armênia, Geórgia e Azerbaijão.

“Países como a Geórgia e o Azerbaijão estiveram em contato com uma política soviética durante mais de 50 anos, com uma grande igualdade entre homens e mulheres, do ponto de vista jurídico. Mas, com o fim do período soviético e a importação de novos equipamentos de ultrassonografia, houve imediatamente um forte impulso dos abortos seletivos de meninas”, detalha o demógrafo. E o Brasil? Segundo o especialista, que esteve em um Congresso este ano a convite da UFMG, em Belo Horizonte, “a situação é totalmente o inverso”.

“Eu me lembro dos meus colegas e mesmo dos alunos brasileiros tendo uma enorme dificuldade para entender o sistema patriarcal asiático”, diverte-se Christophe Guilmoto. “No Brasil, é o contrário. Os meninos são vistos como mais instáveis, como pessoas que deixarão a família no futuro. Chego a pensar que, talvez, os brasileiros prefiram até ter filhas meninas”, afirmou.