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Resgate Tailândia

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Lendas e espíritos povoam grutas e florestas da Tailândia

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Monge lê em mapa astral destino dos meninos e do treinador presos em caverna. Arnaud Dubus/RFI

A odisseia dos doze garotos e do técnico, presos durante mais de duas semanas na gruta de Tham Luang, no extremo norte da Tailândia, perto da fronteira birmanesa, terminou com um final feliz. Todos foram retirados com sucesso por mergulhadores-espeleólogos estrangeiros e militares tailandeses entre os dias 8 e 10 de julho.


A mídia dissecou os aspectos técnicos da operação de salvamento, ou as particularidades geológicas de Tham Luang, as quais tornavam o resgate particularmente delicado. Mas se os conhecimentos, a boa organização e o material foram ingredientes do sucesso, uma outra dimensão é tão importante quanto para os camponeses locais e habitantes das zonas rurais em geral no país: o lado religioso e supernatural dessas cavidades subterrâneas.

Durante a operação de salvamento que durou duas semanas, Phra Direk, um monge budista que veio da província vizinha de Phrae, instalou regularmente sua mesa na parte de baixo da ladeira enlameada diante da entrada da gruta. Ele abria um diagrama astrológico traçado sob tecido branco, depois recitava preces e borrifava os fiéis prostrados diante dele com água benta.

“Há muitos espíritos e fantasmas na floresta. São eles que protegem a floresta e a gruta. Em Tham Luang, há principalmente a alma errante da princesa Nang Non. Talvez essas crianças tenham cometido algum sacrilégio ao entrar na caverna”, explicou.

Na Tailândia, todos os lugares são habitados por seus próprios espíritos, mas as “áreas selvagens” são especialmente protegidas por essas entidades sobrenaturais, pois são pouco frequentadas por humanos.

Saudação antes de urinar

Um tailandês, quando está em uma floresta e fica com vontade de urinar, faz antes uma reverência respeitosa aos espíritos do local antes de passar à ação, uma precaução para evitar consequências problemáticas.

As grutas são particularmente sagradas, pois são ao mesmo tempo selvagens, escuras e subterrâneas. A princípio, ninguém mora ali, com exceção de seres mais virtuosos, como monges que seguem a “tradição da floresta” e que se instalam no local para meditar, às vezes por meses.

Para entrar em uma gruta é preciso, portanto, mostrar respeito aos espíritos, ou ao espírito da caverna. Tham Luang é um local especial, pois uma antiga lenda conta que uma princesa do reino de Chiang Rung se matou ali ao usar o alfinete de cabelo como punhal.

A princesa Nang Non e seu amante, um plebeu criador de cavalos, estavam escondidos na gruta para fugir à fúria do pai dela, o rei de Chiang Rung. Quando o monarca manda executar o amante, que saiu da caverna para buscar alimentos, a princesa decide se matar.

O sangue de Nang Non formou o rio de Mae Sai, que corre perto da gruta. A cadeia de montanhas Nang Non, que cobre a caverna, representa seu corpo estendido. O pico de Doi Tung, a alguns quilômetros dali, é seu ventre.

Previsões exatas

“Eu invoco o espírito da princesa Nang Non, para que ela faça prova de clemência aos meninos”, explica Phra Direk, após terminar seu ritual.

Os tailandeses misturam de maneira muito natural as práticas animistas que existem há milênios e o budismo theravada, que surgiu no antigo Sião por volta do século V da era cristã. Elementos hinduístas se superpõem, resultando em um sincretismo colorido.

Por isso, quando um célebre monge da floresta, Kruba Boonchoom, indicou no dia 30 de junho que os meninos seriam encontrados “nos próximos dias” - e que essa previsão se concretizou –, os tailandeses viram aí uma confirmação da virtude moral do religioso.

Durante uma coletiva de imprensa no dia 8 de julho, depois que os quatro primeiros meninos foram resgatados, o chefe dos comandos da marinha tailandesa implorou a Phra Phirun, deus da chuva, que concedesse a ele “mais dois ou três dias de calmaria”.

Ninguém sabe se a alma penada da princesa Nang Non se sensibilizou às preces de Phra Direk ou às orações budistas coletivas organizadas diariamente por todo o país durante a operação de resgate.

Dignidade budista e meditação

Mas o que sabemos é que o treinador e os meninos do time dos Javalis Selvagens tiveram sangue frio e dignidade bastante budista uma vez presos nas galerias subterrâneas. O treinador Ekapol Chanthawong, que foi noviço durante alguns anos no pagode de Mae Sai, conseguiu manter as crianças calmas, ensinando-as a meditar.

Os espíritos locais talvez tenham se sensibilizado. Assim que Kruba Boonchoom anunciou que todos os meninos e técnico iam ser salvos, o resgate se deu rapidamente e sem problemas.

Depois do sucesso da operação de salvamento, o chefe da junta e primeiro-ministro tailandês, Prayuth Chan-ocha, organizou uma cerimônia de agradecimento no templo do Buda de Esmeralda, em Bancoc, e prestou homenagens ao deus hindu Brahma e a Phra Siam Thewathirat, a deusa protetora do país. Pois, mesmo com toda a tecnologia, é sempre bom ter Buda, deuses e espíritos por perto.