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Da economia à religião: entenda os desafios do novo governo do Paquistão

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O partido do ex-jogador de críquete Imran Khan ganhou as eleições legislativas. REUTERS/Athit Perawongmetha

Enquanto os paquistaneses esperam o resultado oficial das eleições legislativas no país, analistas políticos já apontam os principais desafios do futuro governo. Tudo indica que a vitória seja do ex-campeão de críquete Imran Khan, um defensor de longa data de estratégias populistas.


Nascido em uma família rica de Lahore, Imran Khan estudou nas melhores universidades paquistanesas e inglesas. Graduado em Oxford, ele foi rapidamente acolhido por clubes ingleses de críquete. Aos 19 anos, estreou na seleção do Paquistão, na qual se tornaria o melhor jogador da história do país.

Famoso em todo o mundo por suas conquistas no esporte e na vida amorosa, Khan está a caminho de se tornar primeiro-ministro, pouco mais de duas décadas após a sua estreia na política. O ex-capitão, cujo símbolo eleitoral é um taco de críquete, construiu sua campanha na luta contra a corrupção. Considerado um reformista, ele promete o advento de um "estado de bem-estar islâmico" e um "Novo Paquistão".

Aos 65 anos, idolatrado por milhões por liderar a equipe nacional de críquete em sua única vitória na Copa do Mundo, em 1992, Khan deverá enfrentar dificuldades para alcançar uma maioria absoluta em seu governo. As especulações sobre com quem o ex-campeão fará alianças já começaram.

“Ele deve ter uma maioria relativa e vai precisar formar um governo de coalizão. Mas com quem? Será com os independentes? Será com desertores dos dois grandes partidos, a Liga Muçulmana e o partido do Povo Paquistanês? Como, nos próximos dias ele vai montar esse governo de coalizão?”, pergunta Amélie Blum, pesquisadora da Sciences Po.

Com 80% dos votos contabilizados, os resultados parciais apontam que o partido de Imran Khan, o Paquistão Tehreek-e-Insaf (PTI), cujo nome significa "Movimento pela Justiça no Paquistão", deve conquistar 114 assentos no Parlamento. Para conseguir a maioria, no entanto, são necessárias 137 cadeiras. Assim, Khan terá que procurar aliados entre deputados independentes ou formar uma coalizão com outras correntes políticas. Mas a composição extremamente diversa de seu partido gera incertezas sobre as forças que o apoiarão e sobre quais serão suas prioridades.

“A questão econômica deve se tornar rapidamente muito importante. A inflação está voltando ao Paquistão. O país está na lista daqueles que financiam o terrorismo, então é preciso tirar o Paquistão dessa zona de incertezas. Ele vai precisar fazer isso como líder de um partido complicado de administrar. Um partido que hoje se compõe de pessoas muito diferentes, que mistura a linha dura da política externa, profissionais liberais, mulheres da alta burguesia e também islamitas convictos, extremamente severos contra as minorias religiosas. Ele está realmente à frente de uma colcha de retalhos política complicada de gerenciar”, completa.

Outros desafios pela frente

A relação do novo governante com grupos radicais é outro ponto de interrogação. Alguns críticos chamam o futuro primeiro-ministro de "Taliban Khan", um ataque aos seus repetidos apelos para o diálogo com grupos insurgentes violentos. A visão em relação a temas religiosos e sociais também suscita dúvidas. Recentemente ele disse que o feminismo "degradou o papel da mãe".

Além dos jovens que o admiram e apostam em sua honestidade, Khan é o preferido da classe média paquistanesa, já cansada da corrupção endêmica no país e de ver os mesmos líderes tradicionais das grandes famílias monopolizarem o poder por décadas.

Imran Khan reivindicou a vitória nessa quinta-feira (26), em eleições marcadas por inúmeras acusações de fraude e de um processo de contagem particularmente lento.

"Nós conseguimos, nos foi dado um mandato", disse ele, também minimizando as acusações de fraude. As eleições de quarta-feira foram "as mais justas e transparentes" da história do Paquistão, disse.

O principal rival do ITP nestas eleições, o partido PML-N de Shahbaz Sharif, conquistou 63 assentos até o momento e o PPP (Paquistão People Party) de Bilawal Bhutto Zardari, 43 cadeiras, segundo informa a Comissão Eleitoral Paquistanesa (ECP).

A comissão também rejeita as acusações de fraude e atribui o atraso a problemas técnicos. "As eleições foram conduzidas de maneira justa e livre", proclamou.

Para analistas, no entanto, as circunstâncias da votação podem lançar uma sombra sobre a legitimidade dos resultados, abrindo espaço para o risco de instabilidade política no país.

"Ninguém pode governar de forma eficaz quando metade do país acredita que o vencedor tenha chegado lá se aproveitando de uma manipulação, e não pelo voto do povo", disse o ex-diplomata Hussain Haqqani.

Nessa sexta-feira (27), a Liga Muçulmana do Paquistão, partido do ex-primeiro ministro Nawaz Sharif, reconheceu a derrota. 

O Paquistão é uma potência nuclear, que foi governada por seu Exército durante quase metade de seus 71 anos de história. As eleições de quarta-feira (25) foram um caso raro de transição democrática de um governo civil para outro, num país marcado por golpes militares e instituições frágeis.