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Bomba atômica Hiroshima Nagasaki

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Hiroshima e Nagasaki: sobreviventes falam à RFI sobre preconceito vivido por vítimas

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Sobreviventes das bombas atômicas falam sobre preconceito vivido por vítimas. ©RFI/Christophe Paget

No dia 6 de agosto de 1945, 8h16 da manhã. A cidade de Hiroshima é riscada do mapa do Japão pela primeira bomba atômica utilizada em uma guerra. Cem mil pessoas morrem no ato, outras 40 mil nos cinco meses seguintes.


Reportagem de Christophe Paget

Três dias depois, os americanos lançam uma segunda bomba, desta vez sobre Nagasaki, matando 74 mil pessoas. Foi a segunda e última vez que uma bomba atômica serviu de arma de ataque em um conflito.

Desde então, sobreviventes de Nagasaki e Hiroshima, vítimas da radiação das explosões, dão seu testemunho, no Japão e pelo mundo, a fim de que esse tipo de tragédia não se repita. No Japão, a RFI conversou com dois “hibakusha” - sobreviventes da bomba atômica.

Koji Ueda tinha três anos e meio quando foi atingido pela radiação em Hiroshima. Desde o início dos anos 2000, ele faz palestras em escolas e universidades no Japão e no exterior.

“Quando criamos a associação dos hibakusha, há 62 anos, éramos um grupo muito pequeno. Ninguém acreditava que um dia as armas nucleares seriam proibidas. Com o tratado de proibição de proliferação de armas nucleares pela ONU, eu acredito que isso possa ser possível. Fizemos palestras em locais de fabricação de armas nucleares, como em Los Alamos, nos Estados Unidos. Conversamos com operários de fábricas militares, nas igrejas, na rádio, com ex-combatentes americanos. Também fui falar com alunos da escola onde estudou Robert Oppenheimer, um dos pais da bomba atômica. Sempre falamos sobre Pearl Harbour, o ataque surpresa dos japoneses no Havaí, considerado como um ato inadmissível nos EUA. Eu sempre começo pedindo desculpas pelo que o exército japonês fez e em seguida falo sobre as consequências da bomba. Nessas horas, os americanos ficam emocionados, querem me abraçar. Isso me convenceu de que com testemunhos e relatos podemos chegar ao fim das armas nucleares. As pessoas entendem quando fazemos o esforço de contar o que vivemos. É muito duro falar a respeito, eu preferiria não fazê-lo, mas temos o dever da memória e é preciso continuar com a missão”.

Terumi Kuramori, hibakusha de Nagasaki, é outra vítima da forte discriminação que a sociedade japonesa inflige aos sobreviventes das explosões atômicas.

“Meus pais nunca me contaram o que tinha acontecido. Eu não sabia que era vítima da radiação. A discriminação era muito grande contra os hibakusha. Eu mesma vivi isso quando era jovem e gostava de uma pessoa, mas não pude me casar com ele, pois sou de Nagasaki. Fizeram uma pesquisa e descobriram que fui atingida pela radiação. Há muitos casos de mulheres que tiveram que se divorciar, pois descobriram que eram hibakusha, possíveis portadoras de doenças que se manifestam bem mais tarde. Hoje acho que todos os japoneses são conscientes de que não se deve discriminar. Mas é uma aparência. Tenho a impressão de que a mentalidade não muda nunca, as pessoas sempre ficam desconfiadas quando há casamentos com hibakusha ou descendentes. Há sempre o medo de que os filhos possam herdar doenças”.

No Brasil, Takashi Morita, 94 anos, criou uma associação de sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki.