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A Turquia não tem cacife para peitar as grandes potências

Por RFI

Quem pode pode, quem não pode se sacode. Donald Trump, com a sua maneira de só negociar com a faca e o queijo na mão, mostra que as relações internacionais têm pouco a ver com a moral ou o respeito mútuo. A última do lourão é apertar o crânio do presidente turco.

Não que Erdogan seja um anjinho. Muito pelo contrário. Mas afinal de contas, a Turquia faz parte da OTAN, e Washington não tem interesse em ver os turcos abandonar a aliança ocidental e reforçar o namoro com Moscou ou Beijing.

Mas se a Casa Branca decidiu endurecer as ameaças é porque sabe perfeitamente que os turcos não tem cacife para peitar o desafio. Bastou o anúncio de sanções comerciais para que a moeda turca perdesse quase 40% do seu valor, acelerando uma crise econômica e financeira que vem despontando há mais de três anos. A fragilidade turca tem mais a ver com o fracasso de políticas econômicas populistas do que com a bazófia perigosa de Trump.

Claro, Erdogan com a sua arrogância contumaz, já gritou que não ia pedir pinico, e que seu povo podia aguentar qualquer catástrofe. Sonho de uma noite de verão. Quanto à crise financeira que está afundando o país, a solução seria buscar ajuda na Rússia, na China ou no Qatar. O problema é que a Turquia é totalmente dependente do comércio com a Europa e com os Estados Unidos. E que a sua dívida abismal, pública e privada, é financiada pelos capitais estrangeiros.

Com uma moeda no chão, as empresas ficam sem condições de pagar suas dívidas em dólares, os capitais estão fugindo e a economia derretendo. Qualquer empurrão a mais e é uma situação “venezuelana” que surge no horizonte.Quanto à ajuda dos “muy amigos”, as perspectivas são péssimas. A Rússia não tem dinheiro para aguentar a crise turca. A China, que já está numa queda de braço com os americanos, não vai querer se meter nessa pendenga. No máximo, vai tentar aproveitar as dificuldades turcas para comprar algumas empresas turcas a preço de banana.

O Qatar é um bom amigo, mas apesar de estar sentado numa montanha de dinheiro, é pequeno – e vulnerável – demais para dar mais do que uma ajudinha imediata. Queira ou não, Erdogan pode esbravejar mas, com o país derretendo, vai ter que acabar negociando. E não será em posição de força.

Trump tem condições de impor sua politica de "Primeiro a América"
 
A mesma lição pode ser aplicada ao começo de guerra comercial entre a China e os Estados Unidos. É óbvio que a China é um dragão bem mais poderoso do que a Turquia. Mas já começa a sentir suas fraquezas. O yuan e as Bolsas chinesas começaram a cair e o crescimento econômico já está sofrendo um primeiro impacto com a perspectiva das sanções americanas.

O tão propalado avanço tecnológico chinês também está começando a mostrar os seus limites: várias grandes empresas descobriram que são extremamente dependentes de componentes de alta tecnologia americanos ou europeus. Beijing está percebendo que não tem condições de responder à altura às as medidas protecionistas decretadas por Donald Trump.

Pela simples razão que o crescimento econômico e produtivo chinês é muito mas dependente da economia americana do que o inverso. Numa guerra comercial, os Estados Unidos podem sofrer bastante, mas menos do que a China.

Na verdade, Trump está mostrando que tem condições de impor a sua política agressiva de “Primeiro a América” porque sabe que pode contar com a maior força militar e com a economia mais dinâmica e poderosa do planeta. E está disposto, cinicamente a pôr esses trunfos na mesa, sem respeitar nem os inimigos nem os amigos.

Nada disso é bom para o resto do mundo, mas a mentalidade de Trump é a do velho Tucídides: “os fortes fazem o querem, os fracos sofrem o que podem”.

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