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Frente a Trump, a China se prepara para uma nova Guerra Fria

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Sem saber como lidar com Trump, China se prepara para nova guerra fria é manchete do jornal francês Les Echos desta quinta-feira (06). Fotomontagem RFI

Após anunciar que iria aumentar a compra de produtos americanos em bilhões de dólares, a China pensava ter acalmado o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas, desde então, a guerra comercial entre os dois gigantes mundiais só se intensificou. O jornal Les Echos desta quinta-feira (6) analisa como a tensão comercial entre Washington e Pequim é vista cada vez mais pelos chineses como um conflito geopolítico.


O Les Echos destaca que nos últimos dois meses, o regime comunista chinês mudou de tom. A imprensa oficial chinesa, que até então zombava da imprevisibilidade de Donald Trump e a capacidade que ele tem de dar um tiro no próprio pé, agora enxerga a ofensiva americana como uma estratégia global para tentar conter o crescimento da China no cenário mundial.

“Com Washington considerando Pequim como um ‘concorrente estratégico’, o relacionamento entre os dois países vai passar por um reajuste profundo”, afirmou Long Guoquiang, um dos principais economistas do influente Conselho de Estado. O Les Echos ressalta que recentemente, em coluna no principal jornal do partido comunista chinês, Guoquiang comparou a atual estratégia dos Estados Unidos àquela aplicada no passado para manter sua hegemonia e enfraquecer a então URSS.

“Para a China não há mais nenhuma dúvida: o conflito comercial lançado pelos Estados Unidos não passa de um pretexto e marca o começo de uma nova Guerra Fria”, garante o correspondente do Les Echos em Pequim, Fréderic Schaeffer. “Os dirigentes não enxergam mais o conflito como sendo comercial, mas veem cada vez mais como um ataque ao modelo político e econômico fundamental da China”, afirma a consultoria Trivium, baseada em Pequim.

Choque de ambições

Segundo o Les Echos, a ofensiva de Trump ultrapassa, de fato, a questão dos desequilíbrios comerciais. O governo americano tem na mira o plano industrial “Made in China 2025” que pretende transformar o gigante asiático em líder mundial de novas tecnologias. Para Washington, o projeto pretende acabar com a supremacia que até então era do Vale do Silício, região da baía de São Francisco onde estão situadas várias empresas de alta tecnologia.

O jornal francês destaca também que existe um choque de ambições entre as duas superpotências: Trump prometeu “fazer a América grande novamente” enquanto seu homólogo chinês, Xi Jinping, afirma que seu “sonho chinês” e o objetivo de um “ grande renascimento nacional” nunca estiveram tão perto.

Ao declarar que a China é a maior potência mundial, Xi Jinping parece deixar de lado o lema de Deng Xiaoping, o pai da abertura econômica do país há 40 anos, que dizia que Pequim precisava “esperar sua hora e dissimular sua força”. O presidente chinês mostra uma ambição cada vez mais descomplexada à medida que vai reforçando sua autoridade.

Mas segundo o jornal Les Echos, já é possível ouvir algumas críticas à estratégia de Xi Jinping, afirmando que ela só reforça a desconfiança dos Estados Unidos, que se sente obrigado a reafirmar sua potência econômica e geopolítica. A empresa oficial teria recebido a ordem de não divulgar mais informações sobre o plano “Made in China 2025”. Um gesto que até agora parece insuficiente para acalmar a tensão entre os dois países.