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Busca de poder e expansão do Irã gerou inimigos para o regime

Por Alfredo Valladão

O Irã está começando a comer o pão que o diabo amassou. E o diabo pode ser o próprio regime dos aiatolás e seu poderoso braço armado, a Guarda Revolucionária. Os “Guardiões” acabam de perder vários homens num atentado contra uma parada militar na cidade de Ahvaz, na maior província petroleira do país. Não é a primeira vez que a Guarda é atacada, tanto pelo dito “Estado Islâmico”, quanto por combatentes curdos ou movimentos separatistas internos.

O governo iraniano está aprendendo uma velha lição: toda potência expansionista buscando um poder hegemônico fora de suas fronteiras, acaba criando um monte de inimigos.

O Irã aproveitou a fraqueza dos países ocidentais para tentar mandar nos destinos do Oriente Médio. A guerra na Síria entregou de bandeja para Teerã o controle do sul do país, permitindo a criação de um “corredor iraniano” entre o Líbano e a fronteira ocidental do Irã, passando pelo Iraque.

Essa jogada foi possível graças a oficiais dos Guardiões da Revolução que enquadraram o grupo militar xiita libanês – o Hezbollah – e milícias de combatentes xiitas afegãos ou iraquianos. Esses grupos fizeram o trabalho sujo de guerrear pelo Irã por procuração.

No Iêmen, Teerã apoia e arma os rebeldes xiitas hutis contra as forças sunitas apoiadas pela Arábia Saudita e os Emirados. Uma maneira de enfraquecer o inimigo figadal saudita.

No Iraque, os iranianos tentam controlar o processo político do país através de seus aliados xiitas. É muita areia para um caminhão: custa caríssimo e provoca o ódio de todos os regimes árabes sunitas da região, e também de Israel uma potência bem mais aguerrida.

Israel não vai tolerar

O estado judeu não pode tolerar a presença de forças iranianas ao lado de suas fronteiras no norte. Afinal de contas, o regime de Teerã não para de declarar que deseja a destruição de Israel. Portanto, o governo de Jerusalém multiplica os bombardeios na Síria contra as posições do Guardiões e de seus aliados xiitas. E os russos que trabalham com os iranianos são obrigados a engolir a afronta.

Na verdade, a guerra na Síria não acabou e o Irã está condenado a ficar empantanado num conflito de largo prazo. Por outro lado, o regime iraniano com seu programa nuclear e suas ambições de hegemonia regional provocaram uma corrida armamentista no Golfo.

A Arábia Saudita não pode aceitar a expansão e as provocações iranianas na região. E Riad também sabe utilizar grupos terroristas e separatistas sunitas para atacar os interesses iranianos. Aliás, o último atentado em Ahvaz aconteceu na única província iraniana onde a população é sunita e de origem árabe.

Pior para o Irã: a Rússia não quer ficar atolada para sempre na Síria porque não tem condições econômicas para bancar a reconstrução do país. E é Moscou quem garante a presença iraniana.

Pressão sobre Washington

Quanto aos Estados Unidos, eles são pressionados pelos aliados israelense e saudita para impedir o expansionismo do Irã. Resultado: Washington proclamou o fim do acordo nuclear e decretou um pesado embargo contra a economia e o petróleo iranianos. Tudo isso começa a doer. Claro, o regime dos aiatolás não está prestes a cair. Mas também fica claro que não tem meios para resistir em todas as frentes. 

O país está afundando na crise econômica e a população vem manifestando abertamente contra a dinheirama gastada no exterior em vez de aliviar os problemas domésticos.

Manifestações de rua cada vez maiores, atentados terroristas, movimentos separatistas, ajudados ou não por inimigos externos: o Irã não tem condições de enfrentar todo o mundo ao mesmo tempo. Só que a expansão hegemônica é uma das principais bases de poder do regime e dos próprios Guardiões da Revolução, que controlam já boa parte da economia do país.

Para brincar de imperialista é preciso ter muito cacife. O Irã ainda tem alguns trunfos, mas permanecer na mesa do jogo são outros quinhentos.

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