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China aproveita isolacionismo dos EUA para crescer na cena internacional

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O jornal Le Figaro destaca o novo papel da China, que pouco a pouco vai tomando o lugar dos Estados Unidos nas instituições internacionais, 28 de setembro 2018 Fotomontagem RFI

O jornal Le Figaro desta sexta-feira (28) destaca como a diplomacia chinesa redobrou os esforços no relacionamento com outros países dentro das instituições internacionais. Na 73º Assembleia Geral da ONU em Nova York, enquanto o presidente americano Donald Trump monopolizava a atenção, Pequim trabalhava para encontrar todos os países que de alguma forma foram afetados pela nova política externa americana.


Desde que os Estados Unidos começaram a se retirar das instituições internacionais, um movimento que se acelerou desde a chegada de Trump ao poder, Pequim começou a se posicionar para ocupar o espaço vago deixado pelos americanos. A grande novidade é que tudo está sendo feito às claras. A agência de notícias do governo chinês, Xinhua, publicou uma carta interativa retraçando a “retirada americana da comunidade internacional desde que Trump virou presidente”.

O documento começa com as acusações de Trump contra o Tratado Transpacífico (TPP), no dia 23 de janeiro de 2017, e vai até a saída do país do Conselho de Direitos Humanos no último dia 19 de junho. O jornal francês descreve como o diário chinês, publicado em inglês, People’s daily, mostra grande satisfação com a saída dos Estados Unidos da Unesco, do acordo de Paris sobre o clima, do pacto mundial para a migração e do acordo nuclear com o Irã. Sem contar as declarações do assessor de segurança nacional, John Bolton, contra a Corte Penal Internacional.

“Campeã do multilateralismo”

Neste cenário, a China se declarou abertamente “campeã do multilateralismo”, segundo os termos usados pelo porta-voz do ministério de Relações Exteriores, Geng Shuang, que busca conquistar uma influência inédita nos corredores da ONU. “Basta ver o caminho do dinheiro”, sugere a jornalista indiana Seema Sirohi, do Observer Research Foundation. Quando em 2017, os Estados Unidos reduziram em US$ 285 milhões sua contribuição ao orçamento anual da ONU, Pequim tomou o caminho contrário e se tornou o terceiro país que mais contribui. Apesar de ainda ficarem atrás dos americanos, o jornal destaca que a China foi o país que mais aumentou sua contribuição nos programas de manutenção da paz, passando de 3% a 10% desde 2013, além da promessa de US$ 1 bilhão para os próximos 5 anos.

O cientista político Richard Gowan, ouvido pelo Le Figaro, ressalta que no Conselho dos Direitos Humanos e na Unesco em Paris, duas instituições deixadas pelos americanos, “os chineses passaram a dominar a maioria das conversas”. A situação é a mesma na ONU onde, nos últimos meses, dezenas de diplomatas foram convidados pela embaixada chinesa para conhecer “os grandes projetos planetários de Pequim”.

Tensão com os Estados Unidos

Impossível não imaginar esse cenário sem um atrito com os Estados Unidos. O Le Figaro destaca que, na última terça-feira (25), o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, não gostou dos comentários de Donald Trump afirmando que as “interferências” chinesas visam desestabilizar as eleições para o Congresso, marcadas para 6 de novembro.

Alguns especialistas acreditam que Pequim está indo longe demais, deixando de lado a estratégia de Deng Xiaoping, criador da chamada economia de mercado socialista, que pregava uma política prudente, “escondendo sua força e esperando a oportunidade”. “Essa época já não existe mais”, afirmou o ex-primeiro ministro australiano Kevin Rudd. A China mostra agora sua força na ONU, no cenário internacional e no braço de ferro com os Estados Unidos, conclui o jornal francês.