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Brasileira que vive há mais de 30 anos na Arábia Saudita fala sobre conquistas das mulheres e diferenças culturais

Por RFI

Enquanto a Arábia Saudita passa por um momento político-diplomático bastante conturbado, entrevistamos uma brasileira que mora há 32 anos no país do Oriente Médio, na cidade de Jeddah, na costa do Mar Vermelho, e conhece bem a vida em uma nação com muitas diferenças culturais em relação ao que estamos acostumados no mundo ocidental.

Tiago Leme, de Jeddah (Arábia Saudita)

Vanessa Ribeiro de Azevedo, de 50 anos, nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, é casada com Mohamed Al-Jawad, um ex-jogador de futebol da seleção saudita e do Al-Ahli. Os dois se conheceram durante uma viagem de Mohamed ao Brasil.

O recente desaparecimento e possível assassinato do jornalista Jamal Kashoggi dentro do consulado saudita na Turquia está dominando o noticiário internacional, e a Arábia Saudita sofre acusações por causa de seu regime ditatorial.

Vanessa, no entanto, nos conta sobre uma vida bem tranquila no país e destaca os avanços nos últimos anos, principalmente quanto aos direitos das mulheres. Neste ano, pessoas do sexo feminino foram autorizadas a dirigir veículos motorizados e a frequentar estádios de futebol, o que era proibido até então.

Conversamos com Vanessa dentro do estádio King Abdullah, em Jeddah, onde a seleção brasileira de futebol venceu amistoso contra a Argentina, por 1 a 0, na última terça-feira (16).

"O país hoje é outro, quando eu cheguei aqui na Arábia, a mulher era mais limitada, nas ações, elas trabalhavam como professoras nas escolas. Hoje em dia já mudou demais, elas já trabalham em todas as repartições, shoppings, bancos. Eu estar aqui no estádio é uma coisa bem nova pra gente, é a primeira vez que eu venho em um estádio em 32 anos", afirmou.

Vanessa também contou sobre a tradição de, na Arábia, as mulheres terem que usar a “abaya”, uma roupa típica, quase sempre preta, que esconde todo o corpo, deixando apenas o rosto descoberto, e, em muitos casos, apenas os olhos ficam à mostra. Isso tudo em uma região de clima desértico e calor que muitas vezes supera os 40 graus.

"Foi bem diferente, eu já sabia mais ou menos, meu marido já tinha me dado as informações, eu já tinha estudado o que era a Arábia Saudita, o que eu tinha que fazer aqui. Usar a roupa sempre foi obrigatório, mas eu nunca cobri o rosto. É uma questão que se o marido aceitasse, você poderia descobrir o rosto. Mas antes tinha algumas situações de constrangimento, da polícia religiosa te cobrar na rua de tampar o rosto. Hoje em dia já não é tanto, eles nem existem mais, se você quiser soltar o cabelo pode. Depende da sua crença religiosa e da sua família, como eles são. Se o marido permitir, eu posso também", disse Vanessa, destacando que atualmente é o marido que determina se o rosto da mulher deve ser coberto ou não.

"Hoje em  dia, sim. Há 30 anos atrás eles obrigavam até as estrangeiras a cobrirem o cabelo", ressalta.

De acordo Vanessa Ribeiro de Azevedo, os avanços recentes têm deixado a população satisfeita e otimista. Ainda há muitas coisas que as mulheres precisam conquistar na Arábia Saudita, elas ainda têm limitações. Mas para a brasileira é necessário um pouco mais de tempo para os próximos passos.

“Eu acho que as mulheres conseguiram muitas coisas nos últimos anos, é até egoísmo de nossa parte querer mais agora. As coisas vão acontecendo gradativamente, dependendo das necessidades das pessoas de criarem novos empregos. Tem muitas estudantes, que querem ser piloto por exemplo, esta área de trabalho ainda não está aberta para elas, mas no futuro acho que elas vão ter a oportunidade de conseguir”.

Seguindo os costumes árabes, Vanessa disse que se converteu ao islamismo, religião que dita as leis na Arábia, apesar de hoje um muçulmano ter permissão para casar com uma mulher não muçulmana. Ela explicou também que não tem a obrigação de frequentar mesquitas para fazer as cinco orações diárias do Islã.

Acostumada com a vida na Arábia, Vanessa deu a sua opinião: quem vê de fora, sem conhecer a realidade, tem a impressão de que o país asiático é muito mais fechado e conservador do que realmente ele é.

"As pessoas quando chegam aqui e começam a conviver com os árabes, que são super bacanas com a gente, eles gostam muito de brasileiros, tratam o estrangeiro muito bem. Aquela visão que muita gente tem da Arábia Saudita é muito errônea. Muitas pessoas me perguntam, 'vocês moram em cabana?. 'Você andam a camelo?'. Não tem nada a ver, a Arábia Saudita é um país super moderno, tem várias coisas que a gente nem sonha em ter no Brasil, como educação, segurança. Por isso que é difícil voltar para o Brasil, aqui é um país muito bom de se viver", opina ela.

Menos de 500 brasileiros vivem na Arábia Saudita atualmente, sendo que muitos são trabalhadores expatriados por empresas e também jogadores e profissionais do futebol. Para terem um pouco mais de liberdade, a maioria dos estrangeiros vive nos chamados “compounds”, que são condomínios fechados onde as pessoas podem driblar algumas regras do país. Atrás dos muros, homens e mulheres podem frequentar o mesmo espaço juntos, podendo por exemplo ir à piscina usando biquínis ou sungas, o que normalmente é vetado nas áreas públicas.

“É mais confortável para os estrangeiros morar em compounds, porque eles têm mais liberdade. Tem o clube que pode frequentar homem e mulher, tem as piscinas. Então geralmente os brasileiros preferem morar em compounds, por causa da liberdade”, disse Vanessa.

Casada com um saudita e mãe de cinco filhos que nasceram na Arábia, Vanessa atualmente se dedica à família e não trabalha mais, mas já foi professora de educação física e teve uma clínica de estética na cidade de Jeddah.

Questionada se pensa em voltar a morar no Brasil um dia, ela tem a resposta na ponta da língua, e a segurança é um dos principais motivos.

"Eu vou ao Brasil nas férias, no meio do ano, porque toda a minha família mora lá. Mas voltar pro Brasil eu acho complicado, porque meus filhos moram aqui, eles estão constituindo família aqui. Então é complicado eu largá-los aqui e voltar para o Brasil. E eu já acostumei mais com a Arábia, que para mim é um país de paz, onde você consegue criar seus filhos sem muitos problemas, a questão de segurança é muito tranquila. Então eu acho que eles têm aqui o que eu não poderia dar para eles no Brasil".

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