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Brasileiro cria projeto de moradia alternativo e divide casa com imigrantes africanos em Roma

Depois de viver em um acampamento de imigrantes na Grécia, o jornalista brasileiro André Naddeo voltou para a Itália, onde criou um projeto de moradia alternativo. Hoje ele divide um apartamento com seis refugiados africanos em Roma e ajuda na inserção dos jovens.

Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

O jornalista brasileiro André Naddeo, 37 anos, deu uma guinada na sua vida em 2016. Na época, ele estava desempregado e resolveu deixar o Brasil para exercer sua profissão de forma independente e colaborativa. Com este objetivo, foi morar num acampamento com imigrantes no porto de Pireus, em Atenas. A capital grega era uma das principais portas de entrada na Europa para povos que fugiam da guerra e da violência de seus países.

Na Grécia ele viveu como um refugiado e documentou suas histórias. André também criou um projeto, chamado Drawfugees, para que as crianças pudessem expressar seus sentimentos com desenhos, superando as barreiras linguísticas.
Em seguida Naddeo voltou ao Brasil e foi para Boa Vista, em Roraima, onde participou do programa de inclusão social para imigrantes venezuelanos no mercado de trabalho brasileiro.

Em janeiro de 2018, ele decidiu vir a Itália realizar o projeto habitacional para ajudar refugiados. Agora ele mora no centro capital italiana com seis imigrantes africanos num apartamento que ele alugou. “A África é muito importante para o Brasil, não só no aspecto cultural. A gente tem sangue africano. Resolvi que, para continuar sendo útil e descobrir novos horizontes, deveria vir para a Itália", diz. "Comecei a fazer as minhas pesquisas e encontrei um campo informal de imigrantes em Roma, com a associação Baobab Experience",explica.

O campo ficava no estacionamento de uma ferrovia na estação Tiburtina, na capital italiana. "Assim começou uma outra experiência na minha vida. Descobri a dura realidade desses jovens africanos que, em pleno século 21, tinham sido escravizados, vendidos como mercadoria na Líbia”. Segundo dados da Acnur, (Agência das Nações Unidas para os refugiados), só no ano passado, chegaram cerca de 120 mil imigrantes na Itália.

Em 2018, esse número diminuiu para 22 mil imigrantes. A maioria deles veio da África. Em fevereiro de 2017 a Itália assinou um acordo com a Líbia para impedir a partida de migrantes para a Europa. As associações humanitárias internacionais denunciam que milhares de migrantes são torturados em prisões líbias.

Corretores se recusavam a alugar imóveis

André Naddeo tem dupla cidadania. Apesar do passaporte italiano, ele contou que não foi fácil conseguir alugar um apartamento em Roma. Mesmo garantindo o pagamento antecipado do aluguel, quando ele falava do seu projeto habitacional para africanos, os corretores se recusavam a alugar imóveis.

“Chegava nas imobiliárias e falava: quero alugar, tenho dinheiro, tenho patrocínio para alugar um apartamento de três quartos. Era nítido como os corretores mudavam a cara. Então eu me vi numa situação muito frustrante", diz. "Tive que fazer um vídeo, denunciando como era a situação dos sem teto e dos imigrantes. O campo informal aqui em Roma não tem banheiro, chuveiro, não tem nada”.

Graças a este vídeo, no mês de junho uma voluntária italiana decidiu alugar o apartamento dela para que o jornalista brasileiro realizasse este projeto. O imóvel fica perto da estação central de Roma, tem três dormitórios, um banheiro e uma cozinha. Os seis jovens que vivem com Naddeo são originários de diversos países da África: Sudão, Senegal, Argélia, Guiné-Bissau e Guiné Conacri.

Presença negra incomoda país, diz jornalista

“A Itália é um país muito racista, que está incomodado com a presença massiva de negros nas ruas. Para se pedir proteção internacional, ou o asilo, pede-se o endereço. Como vou dar o endereço se eu não tenho onde morar?” O jornalista explicou que todos os imigrantes com quem ele mora na Itália têm visto de permanência.

“Ninguém tá ilegal ou sem documento nessa casa. Temos três casos de pessoas que conseguiram o passaporte de refugiado da Convenção de Genebra de 1951. Em outros três, um já fez a entrevista onde é analisado o pedido de proteção internacional. Dois deles tiveram o pedido negado e entraram com recurso. A gente trabalha também com advogados e ativistas independentes que ajudam na documentação”.

Mantimentos e e despesas são mantidas por doações

Naddeo falou que demorou quase quatro meses para colocar em prática o projeto. Os mantimentos são comprados com doações de associações de voluntariado e também com a contribuição de um patrocinador brasileiro, Tales Vilar, vice-presidente da empresa Cartão de Todos. Os jovens inquilinos tem que respeitar a disciplina e as regras de convivência, como a limpeza do local.

“Quando eles entram na casa, assinam um contrato concordando com todas as regras. Não se trata simplesmente de ter onde dormir, onde tomar banho e onde comer. Eles têm direito a tudo isso, mas não podem pensar que a vida é só isso, senão se acomodam".

Dois imigrantes da casa já arrumaram trabalho

Entre os imigrantes, um já conseguiu trabalho como mediador cultural no Maxxi, museu de arte contemporânea em Roma e uma bolsa de estudos na universidade. Outro encontrou um trabalho temporário. Segundo o jornalista, é um processo lento, mas traz satisfações.

“Quando pessoas como o Salah, por exemplo, consegue uma vaga na universidade, consegue arrumar um trabalho, vemos que esse tipo de projeto vale a pena. Ontem à noite o Omar viajou para Milão para fazer um trabalho temporário de dez dias, mas já vai conseguir ter um pouco de dinheiro, um trabalho e motivação", conta.

André Naddeo ressalta que um dos principais problemas é incentivar os rapazes africanos a não desistir.“É um processo muito difícil trabalhar com a motivação dos jovens porque a Itália é realmente um país racista, que não tem emprego e não dá oportunidade. Eles precisam usar este projeto para serem independentes, encontrarem um trabalho, para depois conseguir alugar o próprio quarto para depois, quem sabe alugar o próprio apartamento. Fazer a vida que eles vieram atrás, uma vida digna, uma vida humana”, conclui.

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