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Em semana decisiva para a Opep, Catar anuncia saída da organização

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Saad al-Kaabi, Ministro de Estado para Assuntos Energéticos, fala durante coletiva em Doha, no Catar. 03/12/18. REUTERS/Eric Knecht

Os olhos do mundo estão voltados para Viena, onde a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e aliados, entre os quais a Rússia, vão definir esta semana sua política de produção. A reunião, marcada para os dias 6 e 7 de dezembro, tem tirado o sono dos investidores. Há expectativa de que o cartel anuncie um corte de produção, na tentativa de por um freio à queda de cerca de 30% do preço do barril de petróleo desde o início de outubro, mas o atual cenário geopolítico traz variáveis que tornam qualquer análise incerta.  


Mariana Durão, correspondente da RFI em Dubai

 Em meio a um quadro já conturbado, o Catar anunciou nesta segunda-feira que deixará a Opep em janeiro. O ministro para Assuntos Energéticos do país, Saad  Sherida Al-Kaabi, justificou a decisão como um reflexo da estratégia de concentrar esforços nos planos de desenvolvimento e aumento de sua produção anual de gás natural de 77 milhões de toneladas para 110 milhões de toneladas ao longo dos próximos anos.
 
A medida, entretanto, foi interpretada como uma reação ao bloqueio econômico mantido desde junho de 2017 pela Arábia Saudita e aliados do Golfo contra o Catar. A saída do Catar da Opep às vésperas de uma reunião decisiva traz mais instabilidade para a organização, que tenta mostrar consenso entre o grupo, mas não deve ir além disso.

“Pequeno player”
 
 “O movimento é altamente simbólico, já que o Catar é membro da Opep desde 1961. Mas duvidamos que tenha um peso importante nos mercados globais de energia. Enquanto o Catar é o maior produtor mundial de GNL, é um pequeno player no mercado de petróleo – produz apenas 6000 mil barris por dia, o quinto menor membro da Opep”, avaliou em relatório o economista sênior para mercados emergentes da consultoria Capital Economics, Jason Tuvey.
 
O encontro entre o presidente russo Vladimir Putin e o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman durante o G-20, em Buenos Aires, indicou que o caminho para o corte poderia estar pavimentado. Os líderes anunciaram que o pacto que criou a Opec+ - que inclui países aliados no grupo – será estendido em 2019. O acordo com os russos era a peça que faltava no quebra-cabeça da Opec. Apesar dos sinais de fumaça, nenhum dos lados  foi preciso sobre o que está por vir.
 
“Ainda não há decisão final sobre volumes. Mas nós, juntamente com a Arábia Saudita, faremos isso e, qualquer que seja a decisão final, concordamos em monitorar a situação do mercado e responder prontamente a ela”, disse Putin a repórteres após o encontro, em entrevista transcrita pelo Kremlin.
 
Além da confirmação ou não do possível corte, a reunião de Viena trará detalhes fundamentais como a partir de quando ele será realizado, seu montante, por que período e, principalmente, explicando o que embasou seu posicionamento.
 

Tensão entre sauditas e americanos

O analista de geopolítica da consultoria Energy Aspects, Riccardo Fabiani, acredita que os sauditas tentarão evitar o anúncio oficial de um corte de produção pela Opep, o que irritaria o governo americano, costurando uma solução caso a caso com os países aliados. As relações entre os dois países estão na berlinda desde a morte do jornalista Jamal Kashoggi.
 
“A chave para a Arábia Saudita será evitar um corte em nível de grupo, como já anunciado, para agradar Washington, enquanto pressiona os membros da Opep+ a aumentar sua conformidade (produzir dentro de suas cotas), reduzindo assim implicitamente a produção em nível de país”, disse Fabiani à RFI.
 
O dilema enfrentado pelos sauditas também inclui outro ponto. Ao cortar produção e jogar os preços para cima, há um risco de perda de participação de mercado para o gás de xisto americano, cuja produção passa por um salto. Para Tuvey, da Capital Economics, é provável que a solução adotada seja um meio termo, com um corte mais modesto na produção (500 mil a 800 mil barris diários, contra projeções de corte de 1 milhão a 1,4 milhão de barris por dia).
 
No segundo trimestre deste ano os países da Opep cederam às pressões dos Estados Unidos, aumentando sua produção para ajudar a segurar os preços e compensar o efeito das sanções que seriam aplicadas às exportações de óleo do Irã. No entanto, foram surpreendidos mês passado quando Donald Trump permitiu que oito países continuassem comprando óleo iraniano por mais tempo, o que significa um impacto mais lento sobre a oferta.

Equilíbrio do mercado
 
Em novembro autoridades de países líderes da Opep afirmaram a intenção de manter o equilíbrio do mercado, cortando produção se necessário. Reunido em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, o Comitê Ministerial de Monitoramento da Opep+ alertou para um crescimento de oferta superior à demanda global em 2019, impactada pelo cenário de menor crescimento econômico.
 
O relatório mensal da organização projetou um aumento de 1,29 milhão de barris por dia para a demanda, 70 mil barris por dia a menos que o previsto no relatório anterior. Já no campo da oferta  a estimativa é que países fora da organização produzam volumes maiores. O resultado seria um maior excedente de oferta de petróleo no mundo.
 
Ontem a província de Alberta, maior produtora de petróleo do Canadá, anunciou que planeja reduzir sua produção de óleo cru em 325 mil barris por dia a partir de janeiro, até que os estoques sejam reduzidos. O objetivo é ajudar a reverter a curva descendente dos preços. Nesta segunda o preço do barril apresenta recuperação