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Negociações de paz no Iêmen pecam por excluir Irã e Arábia Saudita, diz especialista

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Foto do castelo de Johannesberg, em Rimbo, na Suécia TT News Agency/Janerik Henriksson via REUTERS

Começou nesta quinta-feira (6) a reunião com representantes dos dois lados do conflito no Iêmen. Autoridades governamentais e rebeldes houthis viajaram até o centro de conferências do castelo de Johannesbergs, em Rimbo, a 60 km de Estocolmo, para tentar obter a paz no país, em guerra desde 2014. Pelo menos 10 mil pessoas já foram mortas nos confrontos armados.


A Suécia promete fazer melhor do que a Suíça, onde as últimas negociações de trégua, em setembro, não tiveram bons resultados. Um primeiro avião chegou a Estocolmo na terça-feira (4) com uma delegação de rebeldes. Na quarta-feira (5), foi a vez de doze representantes do governo do Iêmen. Oficialmente, o país nórdico aceitou acolher a reunião a pedido da ONU.

Mas o diálogo não será simples. Os combatentes houthis, apoiados pelo Irã, e o governo do Iêmen, aliado à Arábia Saudita, provocaram, segundo a ONU, a pior crise humanitária no mundo, com 14 milhões de pessoas ameaçadas de fome. Os suecos guardam na memória as precedentes negociações, organizadas no Kuwait, em 2016, que fracassaram após 108 dias de conversas.

Essa não é a primeira vez que a comunidade internacional tenta acabar com o conflito no país, mas o contexto atual é diferente. Sobretudo devido à Arábia Saudita que, desde o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, sofre forte pressão dos aliados ocidentais. Cansados da imprevisibilidade do príncipe herdeiro, Mohammed ben Salman, americanos e europeus fizeram diversos apelos recentes para que ele se envolva na busca pelo fim do conflito.

De acordo com o mediador da ONU, o britânico Martin Griffiths, as negociações de paz desta quinta-feira são uma oportunidade única face à urgência humanitária. “Não quero parecer otimista demais, mas serei bastante ambicioso”, disse. “Queremos tirar Hodeida do conflito, porque [a cidade] é a principal porta de entrada de ajuda humanitária no país.”

Negociações ignoram conflitos regionais

Há três anos e meio, Riade se uniu à uma coalizão que luta contra a rebelião houthi no Iêmen. O conflito interior reflete, na verdade, uma queda de braço internacional entre Arábia Saudita e Irã, este último acusado de armar os rebeldes, fornecendo, inclusive, mísseis de longa distância. Para as discussões desta quinta-feira, nenhum dos dois países foi convidado.

“É possível obter um cessar-fogo, mas é muito otimista dizer que isso trará a paz”, afirma Laurent Bonnefoy, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) de Paris. “Estamos numa situação tão complexa que não é uma reunião de negociações que permitirá solucionar todos os problemas”, explica.

“Sobretudo porque essas negociações, pedidas pelo governo ‘legítimo’, reduz o valor dos diálogos ao excluir um certo número de atores. Em especial, o movimento chamado ‘sulista’, extremamente poderoso no antigo Iêmen do Sul”, lembra o especialista. “Há também uma falha nas negociações: elas se focalizam no nível nacional, mas negligenciam a esfera regional, que também é pertinente. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Irã não fazem parte da reunião e isso pode impedir a aplicação de uma solução pacífica”, conclui Bonnefoy.