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Saída dos EUA da Síria é “presente de grego” de Trump para Putin

Por Alfredo Valladão

Vladimir Putin recebeu um baita presente de Papai Noel. Donald Trump anunciou de supetão que ia retirar os soldados americanos da Síria, entregando o país para a multidão de protagonistas militares ainda presentes: russos, iranianos, turcos ou curdos. É muita areia para o caminhãozinho sírio. O presidente americano nem se dignou negociar uma contrapartida qualquer, passando por cima das objeções do Pentágono e até de pesos pesados do seu próprio partido Republicano que consideraram o fato consumado como “a decisão estratégica mais imbecil da História”.

Também não avisou os principais aliados ocidentais que têm tropas na Síria e dependem da logística americana. Pior ainda: abandonou vergonhosamente os combatentes curdos que estão se sacrificando na primeira linha de combate contra o terrorismo islamista. Não é só no Pindorama que acontecem arroubos monocráticos irresponsáveis.

Não há dúvida de que Trump pensou primeiro na política interna. Sobretudo nesse momento onde muito tiro está saindo pela culatra: a derrota eleitoral da Câmara dos Representantes, a briga com a China e a queda vertiginosa das Bolsas, a falta de maioria no Senado para financiar o seu famoso muro anti-imigrantes, a ameaça de ser indiciado no inquérito sobre a ingerência da Rússia na última eleição presidencial, e agora, a demissão do ministro da Defesa, o general Mattis, considerado, por Democratas e Republicanos, como “o último adulto do Gabinete”.

Não importa: o lourão da Casa Branca sabe perfeitamente que a parte mais radical da sua base eleitoral está deslumbrada com a volta dos “boys” para casa – aliás uma das promessas de campanha do candidato Trump.

Esse tipo de decisões individuais e estrambelhadas só servem para tentar se sair de sinucas domésticas – aliás sem grandes possibilidades de êxito. Mas na verdade, a ideia de deixar a Síria ao Deus dará também faz parte de um pensamento estratégico americano que vem desde a presidência de Barack Obama. Os Estados Unidos não estão mais a fim de gastar dinheiro e sangue para servir de “polícia do mundo”.

Interesses estratégicos

O objetivo é intervir, pesadamente se for preciso, só em caso de que os interesses estratégicos diretos americanos estejam ameaçados. A importância da Síria vinha só da presença territorial de um Estados Islâmico terrorista e do fato do país estar situado no Oriente Médio, o poço de petróleo do mundo. Com a derrota dos islamistas e a nova gigantesca produção de gás e petróleo de xisto no território americano, a região não é mais tão importante aos olhos de Washington.

A Casa Branca de Trump está dizendo claramente que não se importa em pacificar a Síria, ou encontrar soluções políticas para reconstruir o país, ou a própria região. A única coisa que conta é a segurança de Israel e a manutenção da aliança com a Arábia Saudita. A estratégia americana é ficar assistindo de camarote os russos e as potências regionais se digladiarem, e intervir de vez em quando para impedir que um deles se torne hegemônico. O resto que se dane. E não só as populações da região, mas também os aliados europeus que se encontram na primeira linha das ameaças terroristas, políticas e econômicas que vêm do Oriente Médio.

"Presente de grego"

Putin não se entusiasmou tanto pelo presente do Papai Noel Trump, porque sabe que é um "presente de grego". Sem a presença americana, a guerra de todos contra todos na Síria vai explodir de novo. Sobretudo se a Turquia decidir atacar o embrião de Estado curdo no Leste sírio. Moscou não quer saber de ficar atolada na região.  Não tem dinheiro para isso.

A Rússia sonha numa solução política rápida que garanta as suas bases militares e que possa servir para convencer os europeus a financiar a reconstrução do país. Mas sem os americanos vai ser difícil acontecer. O resultado é mais guerra para todo mundo – potências locais e europeias – com os Estados Unidos controlando na arquibancada.

 

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