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Prefeita curda de 31 anos dirige a reconstrução de Raqqa, ex-capital do EI na Síria

Por Adriana Moysés

A revista le Point traz esta semana o perfil de uma mulher admirável: a engenheira agronôma curda Leila Moustapha, de 31 anos, prefeita de Raqqa, a antiga capital do Estado Islâmico na Síria.

Leila fugiu de Raqqa, onde viveu desde pequena, em 2013, e retornou depois da expulsão dos jihadistas, em outubro de 2017. Ela foi escolhida para ser a prefeita da cidade por uma assembleia de 120 notáveis, o que é uma imensa demonstração de respeito na cultura árabe. Vestida como uma ocidental, calça jeans, salto alto, cabelos à mostra, a curda dedica sua energia para comandar um exército de homens envolvidos nas obras de reconstrução.

As condições de segurança em Raqqa ainda são bastante complicadas, conta Leila apagando um cigarro. A cidade registra atentados quase diariamente. Segundo relato da engenheira à Le Point, pequenos grupos de jihadistas ainda promovem execuções e ataques. A violência não vem só dos extremistas. Milicianos enviados pelo regime também matam civis para instigar a população a se revoltar contra os "ocupantes". Um terceiro protagonista espalha o terror: a Turquia, hostil ao anseio de independência e à autodeterminação dos curdos.

Em março passado, o vice-prefeito que assessorava Leila foi assassinado por cinco homens pagos pelo governo turco, que ofereceu US 100.000 de recompensa pelo crime. Os assassinos foram desmascarados e presos graças a um habitante que ouviu uma conversa do grupo. O vice-prefeito morto era uma peça-chave entre a comunidade curda e os sunitas.

Cabeça a prêmio

A prefeita tem consciência que sua cabeça também foi colocada a prêmio. Por isso, ela nunca dorme mais de uma noite no mesmo lugar e só anda num Toyota blindado, doado pelos americanos.

Leila sabe que sua vida só estará a salvo no dia em que puder construir a própria casa e morar dentro dela. Mas esse futuro ainda é longínquo. Até lá, a engenheira curda, infinitamente corajosa, continuará empenhada na reconstrução das 350.000 casas de Raqqa reduzidas a ruínas. Cerca de 80% da infraestrutura foi destruída e a cidade permanece sem eletricidade e telefone.

Mesmo assim, Leila não desanima. Sua obsessão é empregar os jovens nas obras, "para que eles não sejam seduzidos pelos jihadistas". Seu maior sonho? A reconstrução simbólica de uma das duas pontes sobre o rio Eufrates.

Os trabalhos avançam lentamente. Os moradores de Raqqa se viram como podem.

Milhares de dólares para mísseis, migalhas para a reconstrução

A reportagem da Le Point observa que os ocidentais não tiveram problemas para gastar US$ 13 milhões por dia em mísseis no auge da guerra contra os jihadistas. Mas soltam a conta-gotas os milhares de dólares prometidos para a reconstrução. A começar pelos Estados Unidos, que congelou os US$ 230 milhões inicialmente prometidos alegando falta de transição política em Damasco. Os franceses, conta um morador, visitam Raqqa, fazem anotações em cadernos e vão embora.

As marcas do terror estão em toda parte. O dono de um mercadinho conta à reportagem que tirou da cidade duas yazedis, uma adolescente de 16 anos e uma mulher de 24 anos, que os jihadistas mantiveram como escravas sexuais. Um dia, elas conseguiram fugir, bateram na porta dele e pediram que as matasse, para acabar com o calvário que viviam. Uma delas foi estuprada por 18 extremistas durante uma noite, revela o homem chorando. Ele ajudou as duas yazedis a fugir, transportando-as de carro até Kobané ao risco de sua própria vida.

A prefeita Leila prefere olhar para o futuro. Ela conta que em pouco mais de um ano já conseguiu montar oito hospitais, 13 clínicas menores e recrutar 400 professores. "E, claro, acabamos com os cursos de religião."

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