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Camboja Khmer Vermelho Genocídio Vietnã Invasão Ditadura

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Camboja festeja 40 anos de fim de “reino do terror” do Khmer Vermelho

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Segunda, 7 de janeiro de 2019: cerimônia oficial no Camboja no estádio olímpico de Phnom Penh celebra os 40 anos da queda do Khmer Vermelho. Tang Chhin Sothy/AFP

No Camboja, há 40 anos, o sangrento regime do Khmer Vermelho era desfeito. A repressão metódica praticada por estes maoístas radicais treinados no Ocidente custou a vida de 1,7 milhão de cambojanos. A gestão da memória desta tragédia continua a ser uma questão importante da vida política do reino em 2019.


Por Tirthankar Chanda

Em 7 de janeiro de 1979, tropas vietnamitas entraram em Phnom Penh, expulsando o exército derrotado de Pol Pot, o ditador cambojano das mãos manchadas de sangue. O líder do Khmer Vermelho foi enviado de volta à fronteira com a Tailândia, junto com seu Exército.

A tensão estava no auge entre os dois vizinhos, com a proliferação de incursões cambojanas em território vietnamita durante o ano que acabara de terminar. A resposta de Hanói foi decisiva. Depois de destruir as últimas linhas de defesa Khmer, o exército vietnamita rapidamente assumiu o controle do país e instalou um governo de cores mais amistosas.

Quarenta anos depois, o que significa a data de 7 de janeiro para os cambojanos? "Este feriado tornou-se um feriado público, uma data simbólica para a derrubada do Khmer Vermelho e o fim da longa noite de pesadelo em que eles mergulharam o país", diz o historiador Alain Forest, especialista do Camboja.

Uma ditadura sangrenta

Uma breve reconstituição histórica: tendo chegado ao poder em abril de 1975, Pol Pot e sua equipe de revolucionários haviam imposto aos cambojanos sua visão de mundo baseada na coletivização radical dos meios de produção e na vontade de criar uma sociedade agrária sem classe, sem religião ou mesmo dinheiro. Por cerca de três anos e meio, esse regime totalitário, criado pelos comunistas radicais de inspiração maoísta, fez reinar o terror, contribuindo para uma profunda desestabilização social.

A estratégia dos novos mestres de Penhom Penh consistia, por um lado, em transferir para o campo todos os habitantes da cidade e, por outro lado, em organizar perseguições em massa inéditas. Estas visavam "reeducar" as populações “emburguesadas” pela vida na cidade e eliminavam os mais refratários por meio de tortura, quando eles não eram vítimas de execuções sumárias ou mortos pela fome.

O Camboja, sob o regime do Khmer Vermelho, foi uma ditadura sangrenta, na qual morreram 1,7 milhão de cambojanos, um quarto da população do país na época. "Devemos falar sobre genocídio, mesmo que o termo continue problemático, já que neste caso as vítimas dos carrascos Khmer eram essencialmente Khmer", ressaltou Alain Forest.

Lugares de memória

Mas quando, em 7 de janeiro de 1979, os primeiros veículos blindados vietnamitas entraram na capital cambojana, o mundo estava longe de imaginar a extensão da tragédia humana que esse pequeno país no sudeste da Ásia havia acabado de experimentar. Estas foram as descobertas dos campos de concentração e valas comuns, primeiramente descobertas pelos soldados vietnamitas, e depois pelos pesquisadores, que revelaram os numerosos crimes em massa perpetrados em quase-autarquia do Khmer Vermelho contra suas próprias populações.

Até hoje, foram detectados 380 locais de extermínio em todo o país, assim como 20.000 valas comuns e mais de 100 "centros de reabilitação e tortura", como o S-21, que se tornou em 1980 o principal museu do genocídio cambojano, no coração da capital Phnom Penh. Dois jornalistas vietnamitas descobriram o acampamento, seguindo o cheiro de corpos apodrecidos nesta área da capital cambojana.

Os historiadores estimam que entre 1975 e 1979, na antiga escola de Tuol Sleng, em Phnom Penh, transformada em um centro de detenção, interrogatório e tortura, entre 16.000 e 18.000 pessoas foram detidas e torturadas antes de serem executadas dentro de suas muralhas ou no campo de extermínio Choeung Ek (conhecido como "Killing Fields"), localizado na periferia da cidade. Segundo a lenda, as últimas execuções ocorreram em 6 de janeiro de 1979, ou seja, no dia anterior à retomada da capital.

Amnésia coletiva?

Em um país onde 70% da população tem menos de 30 anos, não é surpreendente que a geração mais jovem tenha pouco interesse nos eventos que ocorreram há 40 anos atrás? "Longe de sofrer de amnésia coletiva ou qualquer negação das atrocidades das quais é frequentemente acusada, a juventude cambojana é sensível sobre as questões memoriais. Mas é a memória conflitante do passado que coloca um problema ", afirmou Alain Forest, que acrescentou: "Os eventos de 1975-1979 têm famílias cambojanas profundamente divididas. Cada família tem seu Khmer Vermelho, seus Sihanoukistes, seus Lon-nolanistas. A juventude precisa entender essas ambiguidades familiares, mas ainda faltam referências pedagógicas para fazê-lo com mais clareza", diz o historiador.

O advento do Khmer Vermelho se encaixa na história nacional juntamente com um complexo geopolítico do Sudeste Asiático, que resiste a qualquer análise maniqueísta, como recordou Youk Chhang, diretor do Centro de ONG documentação do Camboja. Envolvido em um projeto de longo prazo envolvendo a evidência física dos horrores cometidos pelos autores do regime genocida, o homem demonstrou que no "campo de reeducação" de Tuol Sleng, quase 80% dos os torturados eram do ex-Khmer Vermelho, que caiu em desgraça.

Esta descoberta questionou a versão oficial do governo cambojano, que sempre sustentou que os massacres que ocorreram sob o Khmer Vermelho eram obra de um punhado de mentes doentes. Uma descoberta ainda mais embaraçosa para o atual primeiro-ministro cambojano, Hun Sen, no poder desde 1985, ele próprio um ex-Khmer Vermelho arrependido.

"Isto não o impediu, no entanto, de ganhar as eleições em julho passado, marcadas por uma elevada taxa de participação”, comentou Alain Forest. “O fato é que essa encenação da memória dos anos do Khmer Vermelho permanece essencialmente política, com o objetivo de oferecer legitimidade ao regime atual. Isto é isso que serve o museu S-21, uma antiga ideia dos invasores vietnamitas, assim como a sacralização da data de 7 de Janeiro, celebrando quarenta anos da queda do regime genocida, e legitimando o subtexto da invasão pelo Vietnã, um país com o qual o Camboja tradicionalmente tem relações conflituosas", analisou o historiador francês.