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Papa Francisco Abu Dhabi Religião

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Emirados se preparam para visita inédita do papa Francisco

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Papa Francisco desembarca em Abu Dhabi para a primeira viagem de um sumo pontífice na história da Península Arábica REUTERS/Max Rossi

O papa Francisco desembarca em Abu Dhabi neste domingo (3) para a primeira viagem papal na história da Península Arábica. Líderes locais vão aproveitar a visibilidade da visita para alertar o mundo contra o ódio entre as diferentes crenças.


Richard Furst, de Abu Dhabi, especial para a RFI

Em Abu Dhabi, o maior e mais rico dos sete Emirados Árabes Unidos, cristãos e muçulmanos trabalham lado a lado nos preparativos para a chegada de Francisco. A grande estrutura montada para os três dias de visita recebe os acabamentos feitos pelo governo local (equipes que reúnem trabalhadores de diversos cantos do mundo, a maioria indianos). Alguns detalhes ainda são finalizados, como o asfaltamento de uma das avenidas por onde passará o papamóvel, a instalação de grades ao redor do estádio ou ainda as bandeiras hasteadas ao longo do trajeto que será percorrido pelo pontífice.

Ultimos preparativos para a chegada do papa Francisco em Abu Dhabi, onde asfalto é retocado para receber o papamóvel Richard Furst/RFI

Os preparativos finais tiveram a participação de trabalhadores de diferentes credos. Numa das janelas de um dos prédios situado no caminho por onde Francisco vai passar, no Centro de Abu Dhabi, um indiano trabalhava minuciosamente limpando os vidros. "Tudo tem que ficar brilhando", disse Peter, 25 anos, que mora há dois anos nos Emirados.

Na sala de imprensa, montada no salão de um dos mais luxuosos hotéis do mundo, na praia de Abu Dhabi, mulheres muçulmanas (nem sempre usando véu sobre a cabeça) coordenam o serviço de entrega de credenciais. Nas ruas, há gente de outros pontos dos Emirados que vieram conhecer o papa de perto. Ou, ao menos, tentar acompanhar os passos do bispo de Roma em território árabe.

Sistema de segurança reforçado, mas discreto

O sistema de vigilância já havia sido reforçado antes mesmo da viagem ser anunciada, em dezembro. Mas por ser considerado um país sem altos índices de violência, ou registros constantes de terrorismo, não é possível perceber o uso de estruturas faraônicas para a vigilância, como o caso da visita de Francisco ao Cairo, em 2017. Na época, soldados foram posicionados a cada 20 metros durante todo o percurso de 30 Km percorridos por Francisco do Aeroporto Internacional do Cairo até o centro da capital egípcia.

Partidário do diálogo com outras religiões e com as várias confissões cristãs, Jorge Bergoglio já viajou a outros países muçulmanos, como a Turquia em 2014, o Azerbaijão em 2016, além o Egito.

Mas a particularidade dos Emirados, que estão a mil quilômetros de distância de Meca, é que toda a população nativa é islâmica (85% sunita e 15% xiita) e a população católica é formada por estrangeiros, que não têm passaporte dos Emirados, apesar da autorização de trabalho. Dos 9 milhões de habitantes, um terço deles vieram da Índia.

Ano da tolerância

Ao contrário da vizinha Arábia Saudita, onde é proibida a prática de outras religiões além do Islã, os Emirados Árabes Unidos pretendem projetar a imagem de um país tolerante. Na Constituição dos Emirados, o Artigo 25 assegura o respeito pela liberdade de culto e proíbe a discriminação pela raça e religião. O ano de 2019 foi convocado pelas autoridades para ser da "tolerância", com destaque para o tema no ambiente de trabalho, publicidades e escolas.

“Vai ser maravilhoso para nós, como cristãos e como estrangeiros trabalhadores aqui nos Emirados", resumiu Isaac, de 25, de Uganda, que estudou numa escola católica, é evangélico e há dois anos mora em Abu Dhabi. “É importante que estejamos juntos, como cristãos ou muçulmanos. Estou feliz por esse momento, ainda mais agora com um papa! Apesar de nunca ter presenciado um discurso de ódio por ser cristão, eu sei que isso existe”, desabafa Isaac.

Há 30 anos em Abu Dhabi, o taxista indiano Malic Hona é muçulmano, não praticante, e não está muito por dentro da visita do papa. Mal sabia que o pontífice já chegava neste domingo. "Estou por fora, mas a televisão não para de falar. E já percebo as pessoas um pouco diferente nas ruas. Parece que estão com uma esperança maior do que a minha", brincou o taxista.

Imprensa local dá grande destaque para visita de papa Francisco Richard Furst/RFI

“Modelo de coexistência”

O papa argentino vai passar apenas 39 horas no território árabe. A viagem começará no domingo, quando Francisco deixará Roma pelo Aeroporto Fiumicino após rezar o Ângelus da sacada de seu Palácio Apostólico, no Vaticano. O avião pousará em território árabe às 22h no horário de Abu Dhabi (17h em Brasília), no aeroporto presidencial. A cerimônia de boas-vindas será realizada apenas na segunda-feira (4), ao meio-dia local (6h de Brasília) na entrada do Palácio presidencial, quando Francisco se encontrará com o príncipe herdeiro, o xeque Mohamed bin Zayed Al Nahyan

Durante a tarde, será realizada a reunião entre o papa e os membros do Conselho Muçulmano de Anciãos na Grande Mesquita de Abu Dhabi, que pode acomodar 40 mil pessoas, o que a coloca entre um dos maiores templos do mundo. Em seguida, o pontífice participará do Encontro Inter-religioso "Fraternidade Humana", quando fará o primeiro dos três discursos previstos. Jorge Bergoglio vai falar em italiano e os discursos serão retransmitidos em árabe e inglês por telões distribuídos em diversos pontos de Abu Dhabi.

O papa postou um vídeo, gravado pelo Vaticano, no qual começa, em árabe, com a mensagem: "Al Salamu Alaikum" ("a paz esteja com vocês"). O pontífice disse que os Emirados Árabes Unidos são um "modelo de coexistência" enquanto defende que a fé em Deus "une e não divide". Além disso, ressaltou que é "uma terra que procura ser um modelo de convivência, fraternidade humana e encontro entre diferentes civilizações e culturas, onde muitos encontram um lugar seguro para trabalhar e viver livremente, respeitando a diversidade".

A visita ao país vem pouco depois de uma viagem ao Panamá para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), de 22 a 27 de janeiro, e pouco antes de um deslocamento ao Marrocos, em 30 e 31 março.