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Argelinos querem acabar com gerontocracia corrupta no poder

Por Alfredo Valladão

“Libertar a Argélia!” Um slogan gritado e cantado por centenas de milhares de manifestantes pacíficos em todas as cidades do país. Um grito paradoxal, já que os argelinos pagaram um preço humano exorbitante durante a guerra da independência contra o colonialismo francês.

Na verdade, a independência argelina foi confiscada, desde o primeiro momento, por uma pequena casta militar. Boa parte dos líderes da guerra de libertação foram rapidamente assassinados, presos ou exilados. O poder foi usurpado pelos oficiais do chamado “exército das fronteiras” estacionado na divisa com o Marrocos. Bem armados e disciplinados, e sem nunca ter dado um tiro durante os sete anos de guerra, foi um passeio na pista derrotar as forças insurrecionais do interior.

Comandados pelo coronel Houari Boumédiène, essa pequena camarilha instalou um regime autoritário e corrupto, mamando as riquezas petrolíferas do país e controlando a população pela repressão, um partido único (o FLN) e manipulações sistemáticas. Na cúpula do poder: o temível serviço de inteligência – a “Segurança Militar” –com seus quadros brutais, formados pelo KGB soviético e a Stasi da Alemanha do Leste.

O grande sonho de liberdade e democracia dos argelinos foi enterrado nas cinzas de um país rico... e miserável. A agricultura foi destruída, a infraestrutura deixada pelos franceses foi apodrecendo sem manutenção e investimentos, a industrialização pesada foi um fracasso. Só os diversos clãs da casta no poder se deram bem, monopolizando os royalties da produção de gás e o comércio de importação/exportação.

Luta pelo fim da ditadura

Em 1988, depois de 25 anos de poder dito “revolucionário”, o desespero dos argelinos levou multidões às ruas pedindo o fim da ditadura. O poder, apavorado, mandou atirar, matando mais de quinhentos manifestantes. Era a primeira vez que o Exército de Libertação atirava no povo. O regime não teve jeito senão conceder uma tímida abertura: o fim do partido único e a convocação das primeiras eleições livres no país. Não deu outra: no primeiro turno as duas forças de oposição – o partido islamista e os democratas da Frente das Forças Socialistas chegaram na frente do velho FLN. De novo, os diversos clãs do poder se dividiram.

O regime entrou em pânico e apelou para o golpe: o exército impediu o segundo turno e os serviços de inteligência aproveitaram a radicalização de uma parte dos islamistas para lançar uma guerra civil “suja” que durou dez anos e fez mais de 300.000 mortos. Os argelinos saíram desse pesadelo exaustos e apavorados com tanto sangue e atrocidades. As diferentes camarilhas do poder encontraram um presidente que conciliava todas as suas facções: Abdelaziz Bouteflika. Mas o país acabou, afundando na crise econômica permanente e no total desespero social e cultural. Nem a onda das revoluções árabes conseguiu convencer a população a tentar de novo conquistar a liberdade.

Presidente "múmia"

Só que hoje, o anúncio da candidatura de Bouteflika a um quinto mandato, foi a gota d´água. Depois de um derrame cerebral, o presidente virou uma múmia, sem condições de governar e até de falar. Uma decadência que é a própria imagem do apodrecimento de toda a geração da independência, no poder há cinquenta anos.

As enormes manifestações dos últimos dias no país inteiro gritam a vergonha de ter que viver com uma gerontocracia corrupta no poder e a vontade de acabar de vez com o regime, abrir o país e, finalmente, conquistar a democracia e a liberdade. Só que a velha e decrépita nomenclatura, junto com os jovens oportunistas que se juntaram ao poder, não estão a fim de entregar a rapadura. Bouteflika não existe mais, e está difícil encontrar um novo candidato de consenso entre eles para continuar ocupando o poder e garantindo suas sinecuras.

Enquanto isso não acontece, tudo é possível, inclusive novos massacres do exército contra o povo. Só resta torcer para que, desta vez, a Argélia consiga conquistar a sua liberdade, nem que seja tarde. 57 anos depois da independência.

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