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Eleições em Israel: especialista vê complô populista em escala mundial

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Um cartaz de Benjamin Netanyahu é visto acima de um outro de Benny Gantz, da Aliança Azul-Branco, em Petah Tikva. REUTERS/Nir Elias

Os israelenses comparecem às urnas nesta terça-feira (9) para eleições legislativas cruciais para o futuro do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, 69 anos, há 13 anos no poder, apesar de persistentes denúncias de corrupção.


Mais de seis milhões de israelenses estão convocados para eleger os 120 deputados do Knesset. Os resultados deverão ser conhecidos apenas na quarta-feira (10). Netanyahu tem como adversário Benny Gantz, um general linha dura e sem experiência política, líder da aliança Azul-Branco, de centro-direita.

Na reta final da campanha, Netanyahu tentou mobilizar o eleitorado de direita para votar em seu partido, o Likud. Dominique Vidal, historiador, jornalista e especialista em Oriente Médio foi entrevistado pela RFI para analisar o pleito.

RFI – As últimas pesquisas de opinião mostram uma ligeira vantagem de Benjamin Netanyahu. Ele tem mesmo chances de ganhar?

Dominique Vidal - É preciso ser cauteloso, pois Israel sempre traz surpresas eleitorais. Há duas questões em jogo. Primeiro, vamos ver quem vai chegar na frente. As pesquisas dão dados contraditórios. A segunda questão é saber qual dos dois – Netanyahu ou Gantz - será capaz de formar uma coalizão de pelo menos 61 assentos de um total de 120 no Knesset. Por esse prisma, Netanyahu pode ter mais chances que Gantz, por ter mais aliados em potencial na futura assembleia.

RFI - Como explicar a sobrevivência política de Netanyahu, sendo que está mergulhado em vários casos de corrupção? Por que não surge nenhum outro político capaz de enfrentá-lo?

Dominique Vidal - Acho que a resposta para essa pergunta tem apenas uma palavra: alternativa. Não há alternativa para Netanyahu. O conjunto de forças que poderia representar uma alternativa – em termos de política interna e externa – não existe. Primeiramente, não há um grupo árabe unificado, como foi o caso no pleito passado. E isso significa 20% do eleitorado, 20% da população israelense. Em segundo lugar, a esquerda, isto é o que chamamos de esquerda, ou seja, os trabalhistas, o pequeno partido Meretz, não apresenta nenhuma outra perspectiva.  E finalmente, quando estudamos o programa do partido de Gantz, a Aliança Azul-Branco, temos a impressão de que apenas algumas nuances o separa de Netanyahu. O premiê é um homem que se apresenta com todos os defeitos do mundo e não enfrenta nenhuma outra opção.

RFI – E a respeito do apoio que Netanyahu recebe de Trump desde que ele chegou à Casa Branca? O presidente americano também apoiou o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e a soberania israelense de Golan.  

Dominique Vidal - São dois bons exemplos de apoio, mas talvez seja uma surpresa, mas além de Trump há o apoio de Putin. É a internacional dos populistas, eles estão por trás de Netanyahu. Podemos ir além, tem também Bolsonaro, que visitou o Muro das Lamentações. Há todas as forças populistas, mesmo antissemitas, da Europa Central, que são aliados de Netanyahu. Estamos diante de uma espécie de complô populista em escala mundial.

RFI – O senhor falou que há apenas nuances entre Netanyahu e Gantz. Existe grandes pontos de oposição entre os dois?

Dominique Vidal - A grande diferença, na minha opinião, é que Netanyahu tem uma potência política adquirida com o tempo, há décadas, que é um poder considerável, é a pedra angular da aliança entre a direita e a extrema direita. Acho que não seria o caso se Gantz ganhasse. Existe portanto um risco verdadeiro com a reeleição de Netanyahu de uma nova radicalização. Eu digo nova porque já vimos, desde 2015, muitos elementos bastante radicalizados, como a nova lei fundamental, constitucional, que é uma lei de "apartheid", que diz que somente o povo judeu tem o direito de autodeterminação. Portanto, os árabes, não têm, é claro. Há a lei de possível anexação da Cisjordânia, que Netanyahu prometeu há poucos dias. Há leis liberticidas [que tolhem liberdades], há as alianças das quais falei com as forças populistas, tudo isso pode se agravar ainda mais, para ir realmente em direção a uma situação na qual a questão palestina possa ser definitivamente erradicada da paisagem do Oriente Médio.

RFI – Um dos fenômenos marcantes é o Likud, o Partido Trabalhista, que pode ainda perder assentos. Mas é um partido que governou Israel várias vezes no passado, como isso se explica?

Dominique Vidal - Sim, se pensarmos no período entre as duas guerras, com David Ben-Gurion, que dirigia o executivo sionista, desde os anos 1930 até 1977. Depois, um curto período com Yitzak Rabin, antes de ser assassinado. Acho que o Partido Trabalhista perdeu sua substância. Ele deixou de ser um grupo trabalhista. Hoje em dia, a grosso modo, a população vota na direita. São principalmente as camadas médias, mesmo médias altas, que votam nos trabalhistas. E, quase desaparecido, está o Partido da Paz, que propunha dois Estados, um palestino e outro israelense. Veja o programa do Partido Trabalhista hoje. Esse assunto desapareceu completamente do programa.