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Eleição de Bolsonaro é prenúncio de período sombrio para democracia, diz relatório da RSF

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Relatório anual da ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF) RSF.ORG

O número de países seguros para os jornalistas continua caindo no mundo, segundo o relatório anual da ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF) nesta quinta-feira (18). O motivo é a hostilidade contra a profissão, que aponta uma deterioração de seu exercício nas Américas do Norte e do Sul, incluindo o Brasil.


O país perdeu três posições (105° entre 180 países) no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, e se aproxima da chamada zona vermelha, com quatro jornalistas assassinados. Segundo o documento, “a eleição do presidente Jair Bolsonaro, após uma campanha marcada pelo discurso de ódio, a desinformação, a violência contra os jornalistas e o desprezo aos direitos humanos, é um prenúncio de um período sombrio para a democracia e a liberdade expressão no país.”

A RSF lembra o papel primordial que o WhatsApp teve na campanha eleitoral brasileira. Pelo aplicativo circularam, por exemplo, informações falsas destinadas, sobretudo, a desacreditar o trabalho de jornalistas críticos ao candidato Bolsonaro. “Neste contexto tenso, os jornalistas brasileiros tornaram-se um alvo preferencial, e são regularmente atacados por grupos disseminadores de ódio, especialmente nas redes sociais”, sublinha o relatório.

“A chegada ao poder do presidente Bolsonaro veio acompanhada de um discurso de ódio generalizado pelas equipes do Bolsonaro, mas também por seus apoiadores, que são muito bem organizados nas redes sociais e atacam de maneira direta os jornalistas que divulgam informações que vão incomodar interesses do partido e do presidente do país”, disse, o diretor do escritório da RSF para a América Latina, Emmanuel Colombié, em entrevista à RFI.

Segundo ele, o noticiário político em período eleitoral reiterou a ideia de que o jornalismo no Brasil tornou-se uma profissão de risco. “O que mais contribuiu para a deteriorização do exercício livre do jornalismo no Brasil foi a atualidade política, principalmente no período eleitoral, marcada pela proliferação de estratégias de desinformação e um discurso público orientado pela crítica à imprensa, que gerou um sentimento geral de desconfiança em relação ao jornalismo e aos jornalistas.”

"A hostilidade contra os jornalistas e inclusive o ódio propagado em dirigentes políticos em muitos países, acabou provocando agressões mais graves e frequentes" contra estes profissionais, o que suscita um "clima de medo inédito em alguns lugares", condenou a ONG nesta quinta-feira (18). No ranking dos 180 países avaliados, apenas 24% (26% em 2018) estão em situação boa ou relativamente boa.

Maus exemplos

Cuba se manteve como o pior colocado na região (169°), apesar de subir três posições, caminho pelo qual segue a Bolívia (113°, perda de três posições). Para a ONG, o presidente boliviano, Evo Morales, segue o "modelo cubano", controlando a informação e censurando "as vozes demasiadamente críticas ". "Alvo frequente" de ataques armados à imprensa, vítima ainda de pressões e de tentativas de intimidação de parte da classe política, El Salvador perdeu 15 posições e ficou em 81º lugar.

Escandinávia se mantém na primeira posição

A Noruega se mantém pelo terceiro ano consecutivo na primeira posição, seguida pela Finlândia e a Suécia. Fecham a lista o Turcomenistão, antecedido da Coreia do Norte. Também na lanterna, a China perdeu uma posição (177°), assim como a Rússia (149°), onde o Kremlin "acentuou a pressão" sobre os meios independentes e a Internet, "com detenções, revistas arbitrárias e leis liberticidas".

Os Estados Unidos (48°) perderam três posições e entram na zona "problemática". Além das declarações do presidente Donald Trump contra a mídia, "os jornalistas americanos nunca tinham sido alvo de tantas ameaças de morte", nem recorrido de forma tal à segurança privada para sua proteção pessoal, segundo a RSF.

A ONG, sediada em Paris, destaca ainda que a perseguição de jornalistas que incomodam as autoridades "parece agora não ter limites". Cita o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado de seu país na Turquia, que "enviou uma mensagem assustadora aos jornalistas para além das fronteiras da Arábia Saudita ".A Espanha subiu duas posições no ranking (29°) e a França, uma (32°).

Desconfiança na América Latina

A melhora sutil registrada em 2018 na América Latina "foi breve". As eleições em países como México (144°), Brasil (105°), Venezuela (148°) e Colômbia (129°) provocaram um "recrudescimento dos ataques contra jornalistas, praticados sobretudo pela classe política, funcionários públicos e cibermilitantes".

Os incidentes "contribuíram para reforçar um clima de desconfiança generalizada - às vezes de ódio - contra a profissão". A Nicarágua registrou uma das quedas mais significativas do mundo (114°, perdendo 24 posições), segundo a RSF, que denuncia que os jornalistas que cobrem as manifestações contra o governo do presidente Daniel Ortega, considerados opositores, são frequentemente agredidos. "Muitos se exilaram para evitar ser acusados de terrorismo", indica o documento.

Embora a chegada ao poder do presidente Andrés Manuel López Obrador "tenha acalmado um pouco" as relações entre o poder e a imprensa, o México continua sendo o país mais perigoso do continente para os jornalistas, com dez assassinatos em 2018.

A Venezuela perdeu cinco posições, aproximando-se da zona negra do ranking. O viés autoritário do governo de Nicolás Maduro provocou um aumento da repressão contra a imprensa independente, enquanto a RSF registrou um número recorde de prisões arbitrárias e atos de violência praticados por forças de ordem e serviços de Inteligência. Muitos jornalistas tiveram que se exilar, enquanto jornalistas estrangeiros foram detidos e, inclusive, expulsos.