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Como as Forças Armadas vão se adaptar às novas condições de fazer política?

Por Alfredo Valladão

Na França, desde o século XIX, as Forças Armadas são conhecidas como a “A Grande Calada”. Militares não falam, nem se metem em política. A função dos exércitos é defender a pátria contra ameaças externas e representar o recurso último em caso de caos civil generalizado. É uma maneira das instituições políticas de se precaverem contra o poder de coerção da força armada.

As próprias lideranças militares, até quando assumem poderes ditatoriais, não acham graça em desempenhar sozinhas a autoridade política. A coesão interna é fundamental para manter a disciplina na tropa.

Envolver-se na política significa sempre importar para dentro da instituição as contradições e os ódios que existem em qualquer sociedade, democrática ou não, criando divisões insanáveis.

Nos momentos de crise aguda, todos os Estados-Maiores do mundo preferem promover uma fachada de políticos civis, mais ou menos legítima. Nem que seja só uma reles folha de parreira para tentar esconder seu próprio poder. “A autoridade se mantém, enquanto não for coagida a se exercer”, diz a sabedoria popular.

Forças Armadas e legitimidade

Ditaduras militares sempre existiram. Mas legitimidade é essencial para qualquer tipo de poder. Ninguém tem condições de se manter por muito tempo só pela força.  Generais sabem do perigo mortal para a própria instituição, de ter que enfrentar em primeira linha o bufar popular, sem nenhum fusível civil.

A questão, hoje, é como as Forças Armadas vão se adaptar às novas condições de fazer política nesses tempos de revolução digital e redes sociais, com seus intercâmbios diretos, personalizados e permanentes.

Em muitos países da Ásia, África, Mundo Árabe e América Latina, as cúpulas militares constituem o alicerce-mor dos governos. Mas sempre tomaram cuidado de se esconder detrás de figuras civis ou ex-militares representando a legitimidade política.

Esse tipo de situação autoritária pode funcionar – às vezes por bastante tempo – enquanto são capazes de controlar as informações para dividir as oposições e as populações, e de garantir uma dose mínima de estabilidade econômica, nem que seja pobre.

Só que no mundo da globalização das economias, onde tudo o mundo se informa e comunica com todo o mundo, fica difícil segurar o rojão.

Hoje, no Sudão, na Argélia ou na Venezuela, esses arranjos de poder civil-militar estão derretendo diante da raiva de populações inteiras.

Manifestações milionárias se opõem diretamente a esse sistema político reclamando liberdade e reformas profundas. “Quero crescer num mundo moderno!”, apontava um slogan na camiseta de uma criança nos ombros do pai num comício em Argel.

Para os Estados-Maiores militares, o dilema é shakespeariano. Ou bem aceitar as reivindicações da cidadania e arriscar serem eles próprios levados de roldão pelo tsunami popular. Ou bem enfrentar o povo assumindo diretamente o poder, sem intermediários civis. Uma solução que pode acabar destruindo o país e a própria instituição militar.

Preservar a instituição militar

Por enquanto, tanto em Khartum quanto em Argel ou Caracas, a tentativa é tentar salvar ao mesmo tempo a instituição militar e os atuais generais que a comandam.

A ideia é sacrificar os velhos políticos e negociar com os civis – abertamente ou na moita – uma transição controlada pelos chefes de Estado-Maior que exigem a presidência interina do país. Só que a imensa maioria das populações, hiperconectadas e mobilizadas, não cai mais no conto-da-carochinha de que os militares não têm nada a ver com seus governos corruptos, incompetentes e atrasados.

Os cidadãos exigem que os militares voltem para os quartéis e deixem os civis escolherem o futuro político do país. Mas isso não garante a impunidade da cúpula militar.

Os generais não querem largar o osso sem imunidade, e ainda podem se manter pela força das armas enquanto conseguirem segurar o resto da tropa. Claro, a solução é uma negociação, mas por ora ninguém sabe como sair dessa aporia política sem um banho de sangue.

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