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Trump está cavando a cova da autoridade americana, dentro e fora do país

Por Alfredo Valladão

A antiga sabedoria não mente: “Autoridade possuímos até sermos obrigados a exercê-la”. Não se pode confundir autoridade com o uso da força. Ter autoridade é convencer adversários ou subordinados que não adianta desafiá-la – mas sem apelar para as vias de fato. Mas ameaçar sem retaliar é perigoso: solapa qualquer tipo de ascendência.

Não há governo no mundo – amigo ou inimigo – que não tenha um santo respeito pelo imenso poderio dos Estados Unidos, militar e econômico. Mas quando Donald Trump suspende, no último minuto, uma violenta punição militar pelo abate de um drone americano pela Guarda Revolucionária iraniana, o planeta inteiro interpretou como um recuo.

Os guardiões do regime islâmico encararam o Lourão e o Lourão piscou, apesar da queda de braço criada pela Casa Branca contra o programa balístico-nuclear militar de Teerã. Não adianta afirmar que foi para poupar vidas humanas e que “prudência” não é “fraqueza”. Os iranianos festejaram abertamente e os aiatolás já anunciaram que vão desrespeitar o acordo nuclear assinado com as grandes potências. E vão continuar desestabilizando todo o Oriente Médio com suas intervenções militares “híbridas”.

Com essa de machão todo poderoso, Trump está dilapidando o capital de dissuasão americano. Geopolítica não é mercado imobiliário. Utilizar a enorme superioridade das armas e da economia dos Estados Unidos para dobrar o resto do mundo não é tão simples. Ainda por cima sozinho, sem consultar ou montar uma coalizão de países aliados. Como se na política mundial houvesse só ganhadores e perdedores, e a América tivesse que ganhar sempre.

Trump ameaçou a Coreia do Norte e o Irã de riscá-los militarmente do mapa. E também utiliza o fato de que nenhum governo ou empresa importante podem encarar perder o acesso ao mercado dos Estados Unidos ou ao uso da moeda americana. A ameaça de não poder mais fazer negócios no território americano, de não poder utilizar o dólar, ou de perder acesso às redes de comunicação dos gigantes americanos, como Google, Facebook ou Microsoft, equivale a impor uma justiça imperial, extraterritorial, a quem não aceita colaborar com as pesadas sanções comerciais e financeiras decididas por Washington. Pior ainda, Trump não tem a mínima vergonha em lançar guerras tarifárias só para alcançar objetivos políticos, como aconteceu recentemente com o México sobre a questão dos imigrantes. E é óbvio que tudo isso dói muito para quem fica na linha de mira.

Claro, “quem pode pode, quem não pode se sacode”

Essa estratégia da lei do mais forte tem até condições de funcionar enquanto o fortão não pisca. Só que o mundo é um lugar complicado. Trump já pisou na bola várias vezes, recuando sem obter nada da Coreia do Norte, renegociando no muque o tratado de livre-comércio com o México – mas onde tudo fica praticamente na mesma –, deixando sem resposta a campanha de “fake news” russas nas eleições americanas, dando a Síria de bandeja para Moscou e Teerã, e agora o caso do drone derrubado pelos iranianos. Até Barak Obama já havia piscado quando ameaçou o governo sírio de represálias se utilizasse armas químicas, e no final não fez nada, deixando os aliados europeus pendurados na brocha.

O poderio americano é arrasador e poderia esmagar qualquer um. Só que, felizmente, os Estados Unidos também são uma democracia, com muita gente – provavelmente uma maioria – que não concorda em pagar o preço dessa prepotência toda. O objetivo central de Trump é ser reeleito. Começar agora uma guerra sangrenta com o Irã ou arriscar uma crise econômica interna por causa da queda de braço comercial com a China não são as melhores receitas para um repeteco no poder. Por motivos eleitoreiros e pela sua visão simplista da política internacional, Trump está cavando a cova da autoridade dos Estados Unidos, dentro e fora do país.

 

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