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Testemunha de Stonewall relembra revolta gay 50 anos depois

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Bandeiras LGBT perto do bar Stonewall Inn, 26 de junho de 2019. AFP/Spencer Platt

A revolta de Stonewall, como ficou conhecido o evento que deu origem à luta LGBT atual, completa 50 anos nesta sexta-feira (28). Também nesse fim de semana, Paris celebra sua “Marche des Fiertés”, a Parada do Orgulho LGBT+, no mesmo mês em que muitas outras cidades pelo mundo. Mas, para chegar até aqui, um longo caminho foi percorrido. Para reviver as origens desse combate por igualdade e respeito, a RFI publica o depoimento de Jim Fouratt, 74 anos, uma das testemunhas que viveram o começo da “revolução do arco-íris” em 1969, nos Estados Unidos.


Com informações de Philippe Bolopion e Laureen Ortiz, correspondentes da RFI nos EUA

No dia 28 de junho de 1969, Jim Fourrat, homossexual assumido – coisa rara na época, sobretudo para um militante da esquerda americana, que se mostrava abertamente homofóbica –, dirigiu-se ao Stonewall Inn para tomar uma cerveja. Ele não imaginava que faria parte de um evento importante ao chegar neste pequeno bar “copo sujo” dirigido por mafiosos em Greenwich Village, Nova York.

“A história nunca acontece como as pessoas gostariam que acontecesse. Os gays e lésbicas mais ‘apresentáveis’ frequentavam esse bar? Não. Eles eram o tipo de pessoa que seria escolhida para ser mostrada aos heterossexuais, como representante da comunidade? Provavelmente não. Mas foi assim que ocorreu”, conta o militante à RFI.

Ele lembra que tudo começou quando dois policiais chegaram, durante a noite, para recuperar a propina que recebiam dos donos do estabelecimento. Na época, os bares “gays” – que, na verdade, não recebiam oficialmente esse título – eram administrados pelo crime organizado, uma vez que a própria homossexualidade era considerada ilegal.

“O Stonewall Inn era particularmente tenso. Os proprietários não respeitavam os clientes, mas pelo menos ofereciam um lugar seguro para que eles encontrassem outras pessoas”, critica Jim Fouratt. Ele também ressalta que, precisamente por ser mais “popular”, o Stonewall Inn oferecia um local de socialização a gays, lésbicas, trans e qualquer indivíduo “fora da norma” que não podiam frequentar outros bares semelhantes por serem de classe baixa ou por pertencerem a um grupo racial específico. Era, portanto, um nicho dentro de outro. “Mas, vejam só, foi aqui que aconteceu. Foi aqui que nasceu a primeira chama da revolução gay.”

Comunidade sem etiqueta

Naquela noite, Jim Fouratt, após sair do metrô, viu um carro de polícia em frente ao Stonewall Inn e cerca de dez pessoas à volta. “Como sou um bom militante radical, fui logo ver o que estava acontecendo”, brinca. Ao chegar ao local, Jim viu uma lésbica sair do bar algemada e ser posta dentro da viatura, que não foi trancada pelos policiais. “Ela tentou forçar a porta do carro que, para surpresa de todos, se abriu. Foi ali o começo da ‘chama’”, conta.

Quando os reforços chegaram, juntaram-se aos frequentadores do Sontewall Inn – que estavam sendo retirados do estabelecimento pelos policiais – outros clientes do West Village. “De acordo com a história que foi contada, centenas de pessoas começaram a jogar tijolos. É verdade que havia uma grande hostilidade contra a polícia. Nesta noite, não tínhamos organizado, de maneira consciente, slogans da ‘liberação gay’. Gritávamos coisas como ‘Deixem-nos em paz’, ‘Estamos cansados das propinas’.”

Segundo o manifestante pioneiro, a razão pela qual não havia, nesse momento, frases de efeito em torno da questão LGBT+ é a ausência de uma identificação comunitária. “A maioria das pessoas não dizia ‘sou gay’ ou ‘sou lésbica’. Podíamos adivinhá-lo, através da observação do outro, mas foi um verdadeiro processo de aprendizado até começarmos a traduzir em palavras o sentimento que nasceu naquele momento”, diz.

Stonewall: revolução mundial

Jim Fouratt não esperou muito tempo até lançar o convite a outros manifestantes, mas na época era um pouco mais difícil que criar um evento no Facebook. “Lembro-me de ter ido à cabine telefônica mais próxima para chamar todos os radicais que conhecia”, em sua maioria heterossexuais. Entretanto, nenhum deles respondeu ao apelo.

“Para alguém acostumado a participar de manifestações antiguerra, abertamente homossexual, esperava que eles fossem vir protestar em nome da minha causa”, lamenta Jim Fouratt. Foi por isso que, na noite seguinte, ao ver o bairro cheio de pessoas LGBT+ prontas para manifestar, ele se deu conta de que um evento histórico nascia. “Até então os gays não tinham um movimento próprio, eles participavam de marchas antiguerra, coisas do tipo. Nesse dia eu me dei conta de que era preciso lutar pelos direitos dos gays e das lésbicas. Foi extremamente importante para mim.”

Na época, a batalha inicial girava em torno de demandas como o simples direito de segurar a mão do companheiro ou companheira em público ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Como a maior parte dos manifestantes não sabia muito bem como se comportar numa manifestação, eu estava lá para conter os grupos anarquistas que se juntaram ao protesto e que eram mais violentos. Nossa intenção não era a violência. Queríamos ser visíveis, corajosos e sair do armário”, revela Jim. “Aqui, nesse bar de mafiosos, sujo e lamentável, nasceu a chama que mudou para sempre a forma como as pessoas como eu se identificavam. No mundo inteiro, Stonewall representou uma mudança.”