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Cineasta brasileiro apresenta filme sobre ator uruguaio George Hilton em festival de Milão

O bangue-bangue à italiana e a pornochanchada brasileira são gêneros que durante muito tempo foram desprezados pela crítica, mas que atraiam o grande público aos cinemas. O cineasta Daniel Camargo, 44 anos, revaloriza os filmes que eram menosprezados como de segunda categoria, chamados de filmes B.

Gina Marques, correspondente da RFI em Roma

Daniel Camargo nasceu em Niterói e vive em Milão há um ano e três meses. Em entrevista à RFI Brasil, Daniel contou detalhes sobre sua carreira e seu novo filme, "George Hilton – O Mundo é dos Audazes", lançado no sábado (13) no Festival Agenda Brasil, em Milão.

“Meu último trabalho é uma coprodução entre Brasil- Itália. Trata-se de um documentário que conta a história de George Hilton, o primeiro ator uruguaio a ter uma fama mundial na sétima arte. Ele saiu do Uruguai, apenas com a cara e a coragem para conquistar o mundo e se tornou um dos grandes protagonistas do cinema popular italiano", conta. "Sua popularidade veio principalmente com o western spaghetti, que é um termo pejorativo e comum para definir o bangue-bangue feito aqui na Itália” explica.

Por meio da história de George Hilton , o cineasta mostra como funcionava esta indústria do cinema popular italiano nas décadas de  1960 até 1970. "Quis fazer o registro da vida e da carreira de Hilton, mas principalmente dar voz para as pessoas que estavam lá, com vários depoimentos de quem fez os filmes. Quero que o público possa descobrir ou redescobrir e reavaliar este tipo de cinema", ressalta.

Os filmes de Daniel Camargo abordam um cinema popular e gêneros que, durante muito tempo, foram considerados de baixo nível pelos críticos. Hoje, graças ao diretor americano Quentin Tarantino, filmes que misturam ironia e violência são valorizados e considerados “cult”. "Sempre me interessei muito por um tipo de cinema que a crítica desprezava. Isso sempre norteou o meu trabalho, porque já tem tantos documentários a respeito de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Fellini, Antonioni, mas sobre o cinema popular não existe muita coisa", pondera. "Este gênero hoje está sendo reavaliado pelos seus méritos. Goste ou não, a pornochanchada brasileira ou o bangue-bangue à italiana têm uma representatividade na história do cinema, tanto no Brasil como aqui na Itália” explica.

Cinema popular italiano

Daniel ressalta que a história dos filmes italianos é feita de sobras e criatividade porque não havia grandes financiamentos e as produções eram de baixo custo. "Os italianos sempre se apropriavam de um gênero estrangeiro e refaziam à sua maneira. Começou com aqueles filmes de Sansão, feitos com as sobras que as produções americanas deixavam aqui na Itália. Eles vinham fazer filmes como Cleópatra, Ben-Hur, e largavam o cenário, figurino e tudo, então o italiano reaproveitava este material”, revela.

O primeiro gênero popular na Itália produzido nas décadas de 1950 e 1960 é chamado peplum, que em latim significa toga. Eram os filmes épicos, sobre gladiadores, histórias bíblicas ou Mitologia, definidos de forma depreciativa como filmes de “sandália”. "Sansão" ou  "Hércules", com personagens interpretados por atores musculosos, são alguns dos exemplos. "Foi assim também com os filmes de espionagem de James Bond. Como os produtores proibiram o uso da sigla 007, na Itália surgiram os agentes 077, 070, 777 e assim por diante. O italiano explorava um gênero de forma exaustiva", detalha.

O bangue-bangue à italiana

Daniel destaca o cineasta italiano Sergio Leone, o primeiro a fazer o  western spaghetti alcançar a fama mundial, graças também as músicas de Ennio Morricone. Segundo ele, nos bangue-bangues italianos  tudo era exagerado. "O italiano pegava este gênero e trabalhava de outra maneira, sempre muito natural, muito própria e com exagero, usando aquile tom tão operístico que ele tem. No western americano a pessoa tomava um tiro e morria. No bangue-bangue italiano o cara tomava um tiro e girava em câmera lenta, o sangue saía pelo nariz, ele dava um mortal para trás, uma cambalhota e só então caía".

Segundo ele, o bangue-bangue à italiana acabou influenciando o western americano. "O cinema italiano, que era a criatura, influenciava o criador, ou seja, aquele que ele tinha copiado. A tal ponto que o bangue-bangue à italiana virou padrão. Os americanos passaram a seguir o estilo do western spaghetti".

Formado em cinema pela Universidade Federal Fluminense, Daniel também  ensinou cinema e televisão no Rio de Janeiro e em Angola, na África. Na sua carreira , dirigiu os documentários "Antonio Meliande - Pau pra Toda Obra" e "Boca do Lixo - A Bollywood Brasileira", uma minissérie de 5 episódios. É  autor do livro "Anthony Steffen - A saga do Brasileiro que se tornou Astro do Bangue-bangue à italiana."

"É justo desmerecer este tipo de cinema que a gente no Brasil também aproveitou? A nossa pornochanchada é meio que derivada da comédia erótica italiana. Os nossos filmes de cangaceiro também. O próprio Glauber Rocha em "Deus e o Diabo na Terra do Sol" usou muito do que o western spaghetti estabeleceu. Isso é o cinema de má qualidade? É um filme vagabundo? Não é. De repente um filme que a crítica não gosta tem um sucesso de público enorme. Esses filmes são um capítulo da história do cinema. Gostem ou não, eles têm o seu mérito e sua importância”, conclui.

 

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