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Opinião: a cyberguerra passa pelo controle do espaço extraterrestre

Por Alfredo Valladão

Há 50 anos decolava da base de Houston a missão Apollo 11. E Neil Armstrong dava o primeiro passo na Lua. “Um pequeno passo para um homem, um gigantesco pulo para a Humanidade”, declarou o astronauta americano. Meio bilhão de pessoas, grudadas na TV, viveram ao vivo esse acontecimento sonhado há séculos, mas jamais realizado. Só os cidadãos da Rússia e da China comunistas não tiveram direito de ver as imagens em direto. Mas apesar da mesquinharia de seus governos, não podiam deixar de sentir a imensa emoção que se apoderou de boa parte do planeta.

Claro que a missão Apollo 11 fazia parte da rivalidade estratégica entre os Estados Unidos e a União Soviética. E que os passos de Armstrong e “Buzz” Aldrin na Lua representavam uma acachapante vitória do capitalismo e da tecnologia americanos. Mas o simbolismo era de tal ordem na história universal que os habitantes da Terra vivenciaram esses primeiros pulos na superfície do nosso velho satélite como uma conquista da Humanidade inteira.

O espaço não é de ninguém e nenhum Estado terá o direito de reclamar uma soberania sobre um corpo celeste e seus recursos, proclamava o Tratado do Espaço Sideral de 1967. Um acordo que também proibia colocar armas de destruição massiva em órbita terrestre ou em qualquer outro corpo extraterrestre. A guerra foi juridicamente banida do espaço sideral.

Esse sentimento da nossa terrestre pequenez no imenso Universo, e a visão da nossa humanidade comum além das fronteiras e ideologias, foram essenciais para que a corrida para a Lua da Guerra Fria se transformasse em cooperação entre Estados e na grande aventura dos satélites artificiais e das novas tecnologias espaciais. Mas a política sendo política, a tentação de transformar o espaço em campo de guerra nunca deixou de existir.

Tanto os Estados Unidos, quanto a URSS e a China continuaram a pesquisar e desenvolver armas para derrubar satélites. E os militares nunca deixaram de pensar o espaço como um futuro teatro de enfrentamentos bélicos. Mas os ideais do Tratado de 1967 foram relativamente bem respeitados. A órbita terrestre cobriu-se de satélites de monitoramento, comunicação e geolocalização. Até uma Estação Espacial Internacional foi construída em comum por vários países. Cientistas e pesquisadores do mundo inteiro colaboraram em diversos projetos de estudo do Universo.

Fim dos programas espaciais nacionais?

Só que essa infância e adolescência dos programas espaciais está chegando ao fim. Na época da Inteligência Artificial, da Internet e das redes de comunicação globais, o controle do espaço tornou-se imprescindível para as sociedades e economias terráqueas. As novas tecnologias militares são profundamente dependentes dos recursos em órbita.

O avanço tecnológico civil está abrindo o caminho para a futura exploração das riquezas minerais de corpos celestes. A tal ponto que o Space Act votado pelo Senado americano em 2015 autoriza as empresas privadas a tentar essa aventura. Mais espetacular ainda: as agências espaciais nacionais estão perdendo o monopólio da indústria espacial. Várias empresas privadas já estão firmemente instaladas na atual corrida espacial. E a cyber-guerra, que tem tudo para ser a mãe de todos os novos conflitos, passa necessariamente pelo controle do espaço extraterrestre.

A cultura de paz sideral está se esvaindo. O presidente francês, Emmanuel Macron, resolveu tomar consciência do perigo anunciando um novo comando militar para tratar o assunto numa “Força Aérea e do Espaço”. Uma iniciativa que Donald Trump já havia tomado em 2018 com a criação de um Space Command americano.

Enquanto China e Rússia também já tinham seus próprios comandos espaciais. A frase de Neil Armstrong pousando o pé na Lua é uma das mais emocionantes e profundas da história da Humanidade. Um momento onde os habitantes do planeta Terra se sentiram parte de uma mesma família. Pelo visto, essa utopia do Apollo 11 está se desmanchando na preparação das próximas Guerras nas Estrelas.

Alfredo Valladão é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris - Sciences Po

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