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Fim de acordo nuclear entre EUA e Rússia tem a China como alvo

Por Alfredo Valladão

A Rússia e os Estados Unidos enterraram alegremente o tratado nuclear mais significativo do final da Guerra Fria. Em 1987, depois de anos de angústia atômica na Europa, o presidente americano Ronald Reagan e o soviético Mikhail Gorbatchev assinaram o acordo INF que proibia a instalação e a produção de mísseis de médio alcance (entre 500 e 5.500 quilômetros de distância).

Esses foguetes, armados com ogivas nucleares, só ameaçavam o território europeu, do Atlântico aos Urais. Mas na verdade, eram sobretudo ferramentas políticas. A Europa ocidental, membro da OTAN, era protegida da ameaça de uma invasão soviética pelo guarda-chuva atômico estratégico dos Estados Unidos. Só que muitos duvidavam do apetite americano de usar suas forças nucleares de último recurso para proteger os aliados europeus.

Afinal de contas, o uso desse arsenal só podia desembocar na destruição mútua da URSS, da América – e do resto do mundo. Moscou poderia planejar um ataque convencional contra a Europa ocidental sem receio de uma resposta nuclear devastadora americana. E era isso que preocupava os europeus que se sentiam militarmente pelados.

Esse medo virou pânico, quando o Exército Vermelho instalou os seus mísseis SS-20. Uma invasão de tanques russos protegidos por mísseis nucleares táticos colocaria a OTAN numa posição impossível: provocar uma guerra nuclear mundial ou levantar a bandeira branca. Washington podia escolher entre o fim do mundo e o fim da Europa: a resposta foi instalar no território europeu mísseis intermediários que podiam atingir Moscou. O dilema mudou de lado.

Europa fraca e dividida

Quem agora arriscava ser destruído em caso de guerra intra-europeia eram os russos. Só que os europeus também começaram a entrar em pânico. Será que as duas superpotências poderiam topar uma guerra devastadora na Europa já que agora não precisariam mais entrar numa lógica nuclear de destruição mútua? Claro, ninguém queria arriscar um conflito atômico, nem mundial nem local.

O objetivo da União Soviética era intimidar a Europa ocidental para fragmentar a OTAN, obrigando as tropas americanas a voltar para casa. Mas os Pershing II americanos acabaram com essa ilusão: a crise dos mísseis intermediários e o tratado INF precipitaram a queda do império soviético.

Hoje, tanto Trump quanto Putin preferem uma Europa fraca e dividida. Há anos, o Kremlin já não respeitava o tratado INF, desenvolvendo e fabricando um novo míssil de médio alcance. A administração Obama já havia denunciado essa provocação e Trump agora, decidiu chutar o pau da barraca. É mais uma maneira de convencer os europeus de que estão de novo pelados e totalmente dependentes em matéria de segurança. E que portanto, é melhor serem bonzinhos.

Alvo: ambições militares de Pequim

O fim do tratado não muda quase nada do ponto de vista militar, mas a União Europeia está cada vez mais parecendo salame no sanduíche russo-americano. Na verdade, essas jogadas nucleares têm muito mais a ver com a China.

Uma boa parte do arsenal chinês são mísseis intermediários que ameaçam os Extremo-Oriente russo, os vizinhos na Ásia e as forças americanas do Pacífico. Só que a China nunca fez parte do tratado INF e pode continuar tranquilamente a produzir e instalar esse tipo de foguete. Por causa do tratado, Washington e Moscou não podiam responder da mesma maneira. E nenhum dos dois acha graça no crescimento da potência militar e econômica chinesa.

Os russos estão fabricando seus mísseis na moita para instalar na Europa e na fronteira chinesa. E o Pentágono acaba de anunciar que vai desenvolver esse tipo de armamento para posicioná-lo no Pacifico contra as forças chinesas.

A ideia, por enquanto, é de novo política: obrigar Pequim a aceitar um novo acordo INF com a Rússia e os Estados Unidos, proibindo esse tipo de armas. Um resultado que acabaria com boa parte da capacidade chinesa de ameaçar os vizinhos, as forças americanas na região e o Leste da Rússia.

 

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