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Crise hídrica faz países correrem por soluções e já gera conflitos

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Moradores de Chennai, na Índia, enfrentam luta quotidiana para ter acesso à água. REUTERS/P. Ravikumar/File Photo

Relatórios divulgados essa semana pelo painel de especialistas em mudanças climáticas da ONU e o Instituto Mundial de Recursos são alertas para que a falta de água não se torne em breve um problema de escala global. Seca também atinge o Brasil, e não é só no Nordeste.


Lucas Senra, especial para a RFI

A crise climática desencadeou uma série de eventos que provocaram o desequilíbrio natural, que tem impacto direto nos meios mais básicos para a sobrevivência humana. O painel internacional de especialistas em mudanças climáticas que assessoram a ONU, o IPCC, apresentou nesta quinta feira (08), em Genebra (Suíça), um estudo realizado por 107 pesquisadores de 57 países, que aponta para a necessidade de mudanças do manejo da terra e alimentação para combater o desmatamento, a desertificação e o desperdício, afim de que o ecossistema não entre em colapso e comprometa ainda mais o meio ambiente.

O relatório do IPCC mostra como os hábitos pessoais têm relação direta com as mudanças climáticas, e estudiosos afirmam que o consumo de carne é um destes agravantes. A pecuária é responsável por uma considerável parcela deste colapso, pois o desmatamento para a abertura de pastos e a emissão de gás metano, um dos responsáveis pelo efeito estufa, é mais danoso que o gás carbônico expelido por toda a frota de carros, caminhões e aviões do mundo, nota o jornal The Guardian.

Os estudos apontam para esta relação de causa e efeito, e orientam para que haja mudanças de hábitos, a fim de conter os avanços da falta de recursos mínimos para a sobrevivência, como a água, o que já vem acontecendo em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.  

No início desta semana, o instituto americano especializado em questões ambientais, o World Resources Institute (WRI), alertou sobre os riscos de uma crise hídrica em escala global, que atingirá um quarto  da população, distribuída em 17 países.

O número é alarmante devido à grave situação da Índia, habitada por 1,36 bilhão de habitantes, o equivalente a 16% da população mundial, e possui apenas 4% das reservas de água do planeta; os indianos são 77% da população que sofre deste mal. Os outros 16 países também se encontram em áreas críticas que enfrentam graves índices de escassez, por déficits de distribuição, ou pela questão geográfica de estarem em regiões áridas. São eles:  Catar, Israel, Líbano, Irã, Jordânia, Líbia, Kuait, Arábia Saudita, Eritreia, Emirados Árabes, San Marino, Barein, Paquistão, Turcomenistão, Omã e Botswana.

A dificuldade de acesso a este recurso vital poderá atingir várias outras regiões do planeta: 27 pontos são considerados de riscos potenciais para sofrer com a escassez de água. A OMS alerta que países da América Latina, como o México e o Chile, e europeus Chipre, Itália, Espanha, Grécia, Albânia, estão vulneráveis. O Brasil, mesmo possuindo a maior reserva de água potável do mundo, também tem regiões críticas apontadas pelo estudo, como as cidades de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Vitoria, Recife, Fortaleza e Campinas.

O drama do déficit de água

O risco de estresse hídrico se estende por todo o mundo. Cidades localizadas em países de baixo risco, devido às grandes reservas, como no Brasil, que concentra em seu território 12% da água doce superficial disponível no planeta, também correm o risco de viver o chamado “Zero Day”, situação calamitosa em que o abastecimento fica totalmente comprometido, e o local afetado passa por um sério racionamento.

Foi o que aconteceu na Cidade do Cabo, segunda maior cidade da África do Sul, no último verão, e em Chennai, no último mês de julho, cidade indiana de mais de 10 milhões de habitantes que sofreu de uma total “penúria de água potável”, segundo a reportagem da RFI Ásia Pacífico. A região do país asiático apresenta um problema cíclico que é deflagrado tanto nos períodos chuvosos quanto de estiagem. Fatores naturais, mas também humanos, são os responsáveis pela escassez.

Ponto de distribuição de água em Chennai (28/06/2019). Reuters

A principal razão são os baixos índices pluviométricos, somados às altas temperaturas do verão. O quadro de Chennai é particularmente comprometedor porque os quatro reservatórios da cidade estão praticamente secos, e as águas subterrâneas estão evaporando. Porém, quando chove, o lugar não tem meios eficientes para armazenar as precipitações, e o outro fator agravante foi o soterramento de áreas alagadas para serem utilizadas na construção civil.

Não restando outra alternativa, os moradores começaram a cavar poços artesanais em suas residências para acumular água da chuva, o que se configurou em um verdadeiro quadro dramático sob o ponto de vista higiênico. As autoridades locais são cobradas para que o armazenamento seja feito de uma maneira mais satisfatória, a fim de garantir a qualidade de vida dos moradores.

No entanto, neste verão extremamente seco, a megalópole sofre com a falta de recursos hídricos, sobretudo nos bairros mais pobres. O correspondente da RFI na Índia, Antoine Guinard, reporta a situação precária, em que os moradores têm passado horas do dia em filas com recipientes plásticos para coletar água. Caminhões pipa também abastecem poços artesianos comunitários. Por vezes, há um sistema de sorteio para garantir água limpa para os premiados, e a água barrenta que sobra é coletada pelos demais.

O norte da Índia chega a ter temperaturas superiores a 50°C, como em Ajmer, onde um estuário evaporou com o calor. (02/06/2019) AFP Photos/Himanshu Sharma

As pessoas evitam lavar roupas ou mesmo tomar banho para ter o que beber. A escassez prejudicou o comércio e o abastecimento de comida da cidade, já que a falta de água comprometeu as safras. A situação no sul da Índia só melhorará a partir de outubro, quando as monções, ventos sazonais associados à alternância entre a estação das chuvas e a estação seca que ocorrem no Oceano Índico, trouxerem chuva à região. Até lá, o primeiro ministro, Narendra Modi, pede que a própria população encontre uma solução para a crise.

Já o sul da África sofreu com uma das maiores escassezes de sua história no verão de 2018, segundo as autoridades do país, de amplitudes inéditas por causa da ausência de chuvas. O governo declarou estado de catástrofe natural em todo o território nacional, principalmente pela situação da Cidade do Cabo, e um plano de ação de caráter de urgência foi instaurado para conter a crise de abastecimento. As reservas secaram e provisão de água ficou comprometida durante semanas. A situação durou quase dois meses. Os habitantes da cidade foram aconselhados a não utilizarem mais do que 50 litros de água por pessoa durante o dia.

Para resguardar o próprio consumo, marinheiros profissionais chegaram à situação inusitada de propor navegar até a ilha de Gonçalo Alvares, a cerca de 2.600 quilômetro do Cabo, e rebocar um iceberg puxado por rebocadores e navios de cisterna, uma viagem que custaria milhões de dólares, mas que garantiria o abastecimento diário de 130 milhões de litros diários durante um ano. Uma operação viável, segundo cientistas, e que aplacaria a seca, caso fosse necessário - o que não ocorreu.

A ONU alerta sobre o continente africano. Segundo a organização, em 2030, devido ao exponencial crescimento populacional e a expansão das zonas áridas, o déficit de abastecimento per capita chegará a 40%, e medidas eficazes para assegurar o acesso a água potável já estão sendo discutidas, como adotar o modelo israelense de dessalinização das águas oceânicas. Porém, a medida é analisada com cautela já que o método é incrivelmente dispendioso por utilizar muita energia elétrica, e só seria viável com o avanço das centrais solares do continente.

Tecnologias que podem amenizar a crise

Em Israel, um dos países que encabeçam a lista dos que sofrem estresse hídrico, metade da água consumida vem da dessalinização, e tem progredido nas instalações de mecanismos que permitem este processo. Até 2023, 85% de toda a água potável do país virá do mar. Pelo processo de osmose inversa, uma força mecânica gerada por bombas de alta pressão faz com que a água flua através de uma membrana, da solução mais concentrada (água salgada/salobra, ou com impurezas) para a solução menos concentrada, e uma membrana retém os sais e impurezas.

Israel é o país que mais utiliza a tecnologia no mundo. O território possui 5 usinas de dessalinização e está em vias de construir o sexto complexo, que produzirá 200 milhões de metros-cúbicos de água potável. A estratégia visa preparar Israel para enfrentar as baixas precipitações e as secas repetidas na região, que se acentuam pelas mudanças climáticas, conforme estudos. 

Brasil quer ampliar dessalinização

O presidente Jair Bolsonaro manifestou o interesse de trazer a tecnologia para o Brasil, a fim de contornar o problema da seca do semiárido nordestino durante os períodos de estiagem. Porém, a tecnologia existe no Brasil desde 2004, quando o governo federal lançou o programa ‘Água Doce’. Coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente, a ação atende 230 mil pessoas atualmente.

O sistema, implantado em parceria com instituições federais, estaduais e municipais, opera em 575 unidades nos estados do Ceará, Paraíba, Sergipe, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas e Bahia. 147 estações estão em obras, e os estados de Pernambuco, Minas Gerais e Maranhão firmaram convênios, já em fase final de diagnóstico, segundo reportagem de O Globo. Os investimentos médios, de acordo com a matéria, são de R$250 mil, considerando os custos do diagnóstico, implantação, gestão, monitoramento e manutenção. Um sistema atende, em média, 400 pessoas, informou o Ministério do Meio Ambiente.

Seca no nordeste brasileiro. Creative Commons CC0 / Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, anunciou nesta terça-feira (6) em reunião com do deputado federal Heitor Freire que o bombeamento da terceira estação elevatória do eixo norte do rio São Francisco será iniciado em 30 de agosto. A transposição é um plano de ação para amenizar a situação do semiárido e garantir a distribuição do recurso hídrico, projeto iniciado no governo Lula, e que agora o governo Bolsonaro prossegue.  A operação do eixo norte visa beneficiar a região do Ceará.

Esta é a última etapa do projeto de transposição do São Francisco, e já se arrasta desde 2016. Apesar dos sucessivos adiamentos por falta de recursos, 97% das obras já estão executadas. Esta fase final foi prometida ser entregue pelo governo em ainda em dezembro deste ano.  A obra, em execução há 12 anos, foi orçada em R$8,6 bilhões; serão construídos ao todo 700 quilômetros de canais, e atualmente a estrutura já retira 1 milhão de pessoas do colapso hídrico.

Um problema que atingiu São Paulo

A região do semiárido nordeste, outrora a que mais preocupava em relação à falta de água, já não é a única em solo brasileiro. A região Sudeste do país sofreu com a escassez nos últimos anos. Em 2014 e 2015, níveis críticos de seca foram registrados, e a distribuição de água ficou seriamente comprometida. A diminuição drástica do Sistema Cantareira, um dos maiores reservatórios do mundo, responsável por abastecer 8,8 milhões de habitantes, reduziu o volume aquático a até 26,6%.

O especialista em recursos hídricos da Universidade Estadual Paulista Jefferson Nascimento de Oliveira afirma que a seca na região Sudeste, em associação a fatores ligados à infraestrutura e planejamento, foi a responsável pela pior crise enfrentada na região. As causas vão desde a diminuição das chuvas do Estado até o desmatamento, a ocupação desenfreada dos mananciais e a falta de planejamento do governo de São Paulo. No entanto, a Sabesp contesta essa afirmação. Segundo a empresa, duas das principais obras realizadas, a construção do novo Sistema São Lourenço e a interligação Jaguari-Atibainha, só teriam sido possíveis por já estarem planejadas, e puderam assim ser antecipadas "com segurança".

Captura vídeo da barragem do sistema Cantareira. globo.com

Neste período, toda a região sudeste passou por um período de estiagens, e vários municípios entraram em sistema de racionamento. Em 2017, 266 municípios de Minas Gerais estiveram em situação de emergência. Na capital paulista, no período mais crítico, o governo do Estado de São Paulo implementou uma série de programas de bônus na conta de água para forçar a economia das famílias e conter o uso excessivo do recurso, e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, operando quase no volume morto - aquele no qual não é possível escoar - iniciou obras para que esse contingente de águas pudesse ser utilizado.

Segundo dados do Ibope, a população paulistana acusou o governo de ser o grande responsável pela crise, depois a Sabesp, a falta de chuva e a utilização inconsequente da própria população. Em fevereiro de 2015, reportagem do jornal espanhol El País revelou uma lista de 500 empresas que foram privilegiadas e continuaram a receber abastecimento. Na relação de instituições, com data de dezembro de 2014, há condomínios de luxo, bancos, hospitais, shoppings, igrejas, indústrias, supermercados, colégios, clubes de futebol, hotéis e entidades, como a Bolsa de Valores de São Paulo, a concessionária da linha 4 do Metrô de São Paulo, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos e a SPTrans. Num exemplo citado, o shopping Eldorado consome por mês cerca de 20.000 m³, o mesmo que mais de 1.200 famílias de quatro membros juntas, considerando que cada indivíduo gasta 130 litros por dia.

Em julho de 2019, o Sistema Cantareira chegou a operar com 55% da capacidade. Segundo o professor da USP e especialista em Gestão Hídrica Pedro Côrtes, embora o nível atual seja considerado adequado, ele tem que ser avaliado tendo em perspectiva o prognóstico climático para o segundo semestre, devido ao fenômeno climático El Nino, que provoca chuvas intensas. Ao final do inverno, a região da América do Sul estará sob o efeito de uma fase neutra, o que pode provocar uma estiagem.

No ano passado, a cidade de São Paulo foi atemorizada por um novo período de seca que durou aproximadamente 120 dias. O Sistema Cantareira entrou em estado de alerta ao baixar para até 39,9% da capacidade. O racionamento atingiu a região metropolitana, como as cidades de Osasco, Diadema e São Bernardo.  O governo de São Paulo vem tentando tomar medidas em relação ao sistema de distribuição, mas o plano do governador João Doria, de privatização da Sabesp, não se confirma para este ano.

A escassez iminente dos recursos pela má utilização deverá ser motivo de uma revisão de práticas que envolva inclusive os governos. No Brasil, por exemplo, 80% de todo o recurso hídrico é destinado ao agronegócio, e dados do Instituto Brasil de Estudos, Pesquisas e de Gestão revelam que 38% da água distribuída pelas companhias em 2017 foram desperdiçadas no repasse, o equivalente a sete sistemas Cantareira, um prejuízo de R$11,4 bilhões ao ano. Outros dados também assustam: somente para construir um carro, são gastos 400.000 litros de água. Em 2050, aproximadamente 40% da população já não terá acesso a fontes potáveis, segundo o Instituto Brasil.

Este problema, que aumenta ano após ano, pode ser no futuro um motivo para intensas crises migratórias, como destaca o pesquisador do Instituto Humanitas Unisinos Mauricio Waldman. Ele cita alguns conflitos na África do Sul, Israel, China e a Índia, que “estão com os olhos voltados para a questão da água, essencial para que assegurem uma logística que atenda suas demandas”, afirmou em entrevista na instituição. Ele alerta: “Estamos diante de um cenário de disputas que descortinam um profundo acirramento das tensões interestatais, tendo, como resultado direto, conflitos abertos entre povos, etnias e nações pela posse da água”.

* Texto corrigido a partir de informações atualizadas enviadas pelas assessoria de imprensa da Sabesp.