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Europa tenta limitar turismo de massa para proteger seu patrimônio

Por Alfredo Valladão

O grande privilégio da geração do baby boom, nos anos 1960-70, foram as férias; Semanas só para passear, ir à praia, viajar. Claro, era só para os jovens da classe média em plena expansão, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. No resto do mundo era para quem tinha tempo, e meios, de brincar de hippie e descobrir novos países e culturas – pedindo carona e pernoitando em acampamentos ou hoteizinhos de quinta categoria.

A palavra “turismo” existia, mas ninguém pensava nesse corre-corre para visitar sistematicamente, em dois minutos, alguns monumentos emblemáticos de regiões atravessadas às pressas.

Mas agora, as férias se democratizaram. Milhões de pessoas no mundo inteiro, jovens et velhos, puderam viajar graças aos voos low-cost e aos pacotes baratos das agências de viagem. O passeio se transformou em turismo de massa. Batalhões de turistas, guias e ônibus refrigerados, invadindo museus, cidades antigas, praias, montanhas e paraísos naturais.

As pequenas aventuras de parcela de uma geração sortuda, viraram indústria. Um serviço essencial para o crescimento econômico de quase todos os países do mundo. Populações locais inteiras propondo restaurantes, pousadas, passeios de lancha, escaladas, lembrancinhas “Made in China”, e falsos bailes folclóricos. E multidões de turistas abobalhados, voando de um lado para outro, procurando paisagens que descobriram numa série de TV, sem entender patavina ou partilhar qualquer coisa com as culturas locais.

Paisagem para “selfie”

O único objetivo é clicar um “selfie” em frente de algo célebre. Claro: estourou a boca do balão. A França, a Itália, a Espanha, e quase todos os outros países europeus aonde brilha um solzinho, são campeões desse maná turístico: cada um recebe várias dezenas de milhões de visitantes por ano. Tornou-se impossível conseguir espaço e tempo para apreciar as obras de arte em museus ou até as praças das cidades históricas.

Os resorts na Ásia ou no Caribe estão abarrotados de gente que deixa um rastro de sujeira, lixo plástico e descaracterização cultural. Até para subir no Everest ou no Monte Branco tem que fazer fila, com centenas de alpinistas esperando às vezes durante vários dias – e alguns até morrendo em acidentes estúpidos.

A fauna e flora das reservas naturais está rapidamente desaparecendo. A indústria do turismo de massa matou não somente as antigas “viagens” e “visitas”, mas também o próprio turismo. E, nos últimos anos, o tsunami de turistas chineses deu o golpe de misericórdia.

"As viagens voltarão a ser opções de lazer só para os ricos?"

A reação é cada vez mais patente: reverter a democratização das férias. Veneza quer acabar com os imensos navios de cruzeiro que vomitam milhares de visitantes por dia transformando a cidade numa triste Disneylândia. Em Roma é agora proibido sentar na escadaria da Piazza di Spagna sob pena de multa pesada. Em vários museus da Europa e até no Monte Branco, a política é aceitar só um número limitado de pessoas por dia.

Na Tailândia ou nas Filipinas, ilhas e pedaços de costa foram fechados por meses, e até anos, para reconstituir os recifes de corais e limpar a natureza. Barcelona ou a ilha grega de Santorini também estão tentando restringir o acesso. E essa reviravolta vem junto com o sentimento ecológico cada vez mais forte, que quer acabar com as viagens aéreas e todo tipo de poluição física ou visual.

Só que nada é simples. Profissões – e até populações inteiras – que vivem do turismo de massa, estão ameaçadas de perder o ganha-pão. E por enquanto, ninguém propôs uma alternativa para garantir a vida de tanta gente.

A primeira consequência das políticas restritivas – seja pelo acesso ou pelos preços – é que o turismo e as viagens voltarão a ser opções de lazer só para os ricos ou para a classe média abastada. Os outros terão poucos meios para descobrir o mundo. A equação é marota: aceitar a injustiça social para salvar os patrimônios culturais e o planeta. Será que isso é uma parábola dos nossos tempos modernos?

Alfredo Valladão, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI.

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