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Mobilizações civis massivas e sem violência são único caminho para defesa da democracia

Por Alfredo Valladão

Mahatma Gandhi, apóstolo da não-violência, deve estar surpreso no seu Nirvana. Graças às redes sociais, ele está reencarnando em multidões de ativistas. Em Hong Kong, no Sudão ou na Argélia, milhões de pessoas estão procurando o caminho da liberdade sem dar um tiro. Nada a ver com as ideologias do século passado que procuravam atalhos nas ações de força e até na luta armada.

Os novos movimentos populares tiraram duas lições das derrotas no século XX. A primeira é que um regime imposto pela força sempre acaba em ditaduras totalitárias, e incompetentes do ponto de vista econômico e social. Fascismo, nazismo, comunismo populismos civis ou militares e até os movimentos armados anti-imperialistas e anticoloniais, provocaram terríveis catástrofes.

Não dá mais para acreditar em pequenas vanguardas autoproclamadas que prometem o paraíso terrestre para todos, e se transformam em regimes repressivos, corruptos e manipuladores. A segunda lição é que os movimentos violentos podem ser muito mais facilmente manipulados. O fracasso das “primaveras árabes” foi terrível.

Muitos ativistas pacíficos não aguentaram a enxurrada de “fake news” e as provocações dos serviços de inteligência, e partiram para ações radicais. O golpe fracassado da oposição na Venezuela é mais um exemplo dessa engrenagem fatal. Um prato feito para os regimes no poder que podem isolar os mais radicais acusando-os de “terrorismo” e aproveitando para deslanchar uma pesada repressão contra todo mundo. Resultado: a divisão dos movimentos, as brigas internas, a explosão dos egos dos que pretendem dirigir e, finalmente, a derrota pura e simples.

Hoje, todos estão conscientes desse impasse político: não há soluções nem simples nem rápidas. Uma vitória – que aliás não é nada garantida – vai levar muito tempo. E só depende de uma mobilização massiva constante e sem trégua. A única chance de evitar serem esmagados por governos autoritários é a presença nas ruas de massas de cidadãos pacíficos e determinados a ocupar o asfalto e o palco político o tempo que for necessário.

Um ano e meio de protestos no Sudão

No Sudão, as manifestações de massa quase quotidianas duram há mais de um ano e meio. E apesar das provocações e das milícias que já fizeram centenas de mortos, o ditador Omar el-Bechir caiu e os militares agarrados no poder foram obrigados a aceitar uma partilha de poder com os representantes da sociedade civil. Nada está resolvido, e os dois lados só negociaram um acordo de transição para um poder civil que deveria durar 39 meses. O pior ainda pode acontecer, mas a população sudanesa continua firme e mobilizada.

Na Argélia, as manifestações semanais não arrefecem há mais de três meses. O Estado-Maior do Exército assumiu abertamente o poder, mas não sabe o que fazer. A população que desfila nas cidades argelinas não confia nem nas lideranças do próprio movimento.

A reivindicação é uma só: queremos uma verdadeira democracia. O impasse, por enquanto é total, mas todos sabem que vai ter que acabar com uma negociação.Só que tudo vai depender da capacidade da sociedade civil em manter a unidade e resistir às provocações para evitar um enfrentamento violento direto, para obrigar os militares a deixar o poder, nem que seja devagar.

Situação desesperada em Hong Kong

Em Hong Kong, onde milhões de pessoas ocupam as ruas a mais de 4 meses, a situação é mais desesperada. Difícil pensar que a China comunista queira negociar alguma coisa com uma população que exige um regime democrático.

Mas mesmo assim, a gente de Hong Kong está conseguindo impor a sua agenda às autoridades de Pequim e ao governo local. Uma pequena vitória pacífica que nem os tibetanos, nem os uigures conseguiram. Claro, tudo pode acabar mal. Mas nesse mundo das redes sociais, quem luta pela democracia já sabe que os movimentos pacíficos são mais eficazes do que as ações violentas. “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”, dizia Winston Churchill.

 

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