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Desertificação pode inviabilizar agricultura em um terço das terras do mundo

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O norte da Índia sofre com ondas de calor e temperaturas que chegaram a ultrapassar 50°C. Em Ajmer, a água de um lago se evaporou em junho deste ano AFP Photos/Himanshu Sharma

Um terço das terras do mundo está degradada e poderá em breve se tornar inútil para o cultivo. É com essa constatação alarmante que começou nesta segunda-feira (2) na Índia, a 14ª Conferência das Partes (COP) da Convenção das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação (UNCCD). O continente mais atingido é o africano, onde dois terços das terras estão secos, mas o problema já se tornou mundial.


Sébastien Farcis, correspondente da RFI na Índia

A desertificação é um dos processos mais graves de degradação da terra. Ela ocorre exclusivamente nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas do planeta, conforme a definição das Nações Unidas (ONU). O primeiro motivo que leva a desertificação é o desmatamento. A retirada da cobertura vegetal deixa a terra exposta ao sol e agrava a situação. O solo fica rapidamente arenoso ou rochoso. Sem nutrientes e sem água, é quase impossível que novos seres vivos se estabeleçam.

A segunda causa é a exploração exagerada dos solos pela agricultura intensiva e a utilização abusiva de fertilizantes químicos, que deterioram a qualidade das terras e as tornam tóxicas. Sem esquecer dos efeitos da mudança climática e a diminuição de precipitações, ou ainda a alteração das estações do ano que impede o cultivo de plantações ancestrais.

Desertificação em escala mundial

As consequências podem ser catastróficas. Em países como o Malaui ou a Tanzânia, o custo anual desta degradação dos solos representa, respectivamente, o equivalente a 10% e 15% do PIB. A África é o continente mais vulnerável por causa de seu clima árido, e dois terços de suas terras estão ameaçadas. Mas o problema hoje é mundial. O mesmo acontece em mais de um terço das terras dos Estados Unidos, em um quarto da América Latina e em um quinto da Espanha, um país onde a falta de água e a agricultura intensiva secaram as terras.

Na Índia, um terço das terras está degradada e essa desertificação está se expandindo: 145 mil hectares são atingidos a cada ano. Em todo o mundo agricultores que não podem mais viver do plantio são obrigados a deixar suas casas. A ONU acredita que a desertificação poderia levar à migração de 50 a 700 milhões de pessoas até 2050.

Brasil: conservação da caatinga ameaçada

No Brasil, de acordo com estimativas do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens e Satélites (Lapis), ligado à Universidade Federal de Alagoas (Ufal), 12,85% do semiárido brasileiro enfrenta o processo de desertificação. O estudo mostra que o fenômeno da desertificação se intensificou no semiárido brasileiro nos últimos 10 anos.

Outra estimativa, usada pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) em relatório divulgado no início de agosto, é de que 50% da caatinga passa por alguma forma de degradação, inclusive a desertificação. O dado se refere a 2005. Cerca de 8% do território do Brasil enfrenta algum tipo de degradação, sendo a caatinga o bioma menos preservado.

Uma reunião em busca de soluções

Durante duas semanas, os representantes de 196 países e ONGs irão discutir e trocar informações sobre como estão lutando para conter o processo da desertificação. Porque cada problema é único e as soluções dependem de características de cada local, do clima, da topografia e do cultivo praticado.

Um dia será dedicado ao tema da luta contra tempestades de areia. Outro, será utilizado para debater sobre as novas soluções proporcionadas pela ciência.

Uma grande reunião irá reunir também prefeitos do mundo todo para conversas sobre como os municípios devem responder a essas questões. O objetivo final da conferência é estabelecer metas para que líderes mundiais se comprometam a lutar contra o desmatamento e promovam novas ações para o reflorestamento. A Índia, país organizador do evento deste ano, anunciou que irá reabilitar 5 milhões de hectares até 2030.