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Clima: pouca gente está a fim de experimentar "ditaduras verdes"

Por Alfredo Valladão

Centenas de milhares de adolescentes manifestaram em peso, no mundo inteiro, reivindicando uma solução imediata para a questão climática. “Basta com a fumaça, queremos o assado!”, como diriam os operários italianos em luta nos anos 1960.

Esse movimento juvenil que apontou uma colegial sueca – Greta Thunberg – como porta-voz global se parece muito com as revoltas generalizadas de 1968. Mas a nova geração de militantes não reivindica mais justiça social, “socialismo” ou “comunismo”. Para ela, trata-se simplesmente de salvar o mundo, ameaçado de um colapso definitivo. Ou bem as soluções apregoadas pelos ecologistas são aplicadas imediatamente, ou então a natureza e a sociedade humana vão colapsar. Nasceu uma nova ideologia: o “colapsismo”.

Essa angústia geral diante do aquecimento climático e suas consequências não é só um modismo lançado por pequenos grupelhos de militantes convencidos de que são detentores da verdade. Basta olhar para os resultados eleitorais na Europa inteira dos partidos verdes, os únicos que crescem de maneira espetacular, inclusive ameaçando os populismos chauvinistas que tiveram sucesso nos últimos anos. Basta ver como os partidos tradicionais, da direita e da esquerda, correm atrás para pintar de verde os seus programas. Não só no continente europeu, mas também na América do Norte e em muitos países em desenvolvimento, inclusive a China, campeã do produtivismo. Queiramos ou não, essa onda contra a poluição atmosférica e contra todo o modelo de crescimento socioeconômico da produção e do consumo do século XX veio para ficar. E não é por menos, a grande maioria dos cientistas do clima concorda com a urgência de mudar os comportamentos da espécie humana se queremos evitar catástrofes naturais jamais vistas. Eles não param de botar a boca no trombone.

Ajuste complexo

É claro que os líderes políticos no mundo inteiro estão sentindo o bafo no cangote. Só que resolver o problema ambiental não é tão simples assim, mesmo com muita boa vontade. Os ambientalistas exigem uma revolução total da nossa maneira de produzir, consumir ou viajar. A ideia é respeitar os equilíbrios da natureza acabando com a necessidade do crescimento econômico e promovendo modos de vida bem mais frugais e modestos. Os inimigos são as grandes indústrias, o agronegócio, o comércio internacional, os aviões, os carros e tudo que funcione com energias fósseis, o lixo e toda a sociedade de consumo. Os mais radicais não estão longe do mito de uma Arcádia original, ensimesmada em núcleos de pequenos agricultores. O problema é que falta convencer a maioria das populações.

Tanto nos países mais industrializados quanto nos países mais pobres, as pessoas não estão a fim de viver como os seus bisavós, arraigados num pedaço de terra, com empregos pesados e sem futuro, um consumo limitado e puramente local, ou meios de transporte ineficientes e caros. Nenhum responsável político nacional – democrático ou não – pode impor, do dia para a noite, tamanhos sacrifícios, sem arriscar revoltas monstruosas. Sem falar na questão da justiça social: se formos seguir a cartilha dos ambientalistas mais convictos, os mais sacrificados serão as populações mais carentes. Soluções drásticas não teriam condições de funcionar por muito tempo.

Claro que para os cientistas e os políticos mais responsáveis, a solução passa pela tecnologia. A nova economia digital já está desenvolvendo novos instrumentos para começar a enfrentar o problema climático. Só que é uma corrida contra o tempo. Não há dúvida que se não avançarmos muito nas próximas décadas, a natureza pode ser destruída de maneira irreversível.

Os adolescentes que manifestam pelo mundo afora têm razão em pressionar os líderes políticos para que tomem decisões sérias. Mas não adianta propor soluções extremas instantâneas que mudem a vida quotidiana de populações inteiras, arguindo o fim do mundo. Nenhum governo tem condições políticas para isso. Pouca gente está a fim de testar “ditaduras verdes”, nem que sejam juvenis.

*Alfredo Valladão é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris e assina uma crônica às segundas-feiras na RFI

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