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Meio Ambiente
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Especialistas rebatem argumentos de cientistas que negam aquecimento global

Por Lúcia Müzell

A ascensão de Donald Trump à Casa Branca deu um novo estímulo para alguns cientistas – e muitos pseudocientistas - contestarem as mudanças climáticas. Os mais sérios não questionam que o clima está se alterando, porém afirmam que o homem não tem qualquer responsabilidade nesse fenômeno. No ano passado, o próprio Trump reviu seu discurso e passou a adotar este argumento, para justificar o retomada da indústria do carvão no país e se descomprometer com o Acordo de Paris sobre o Clima, que estabelece limites de emissões de gases de efeito estufa.

Para começar, os “climatocéticos” também não acreditam neste conceito de efeito estufa e sustentam que a concentração de CO2 não influencia no aumento da temperatura do planeta. Ignoram, assim, o conceito elementar da física da espectroscopia. O dióxido de carbono absorve os raios infravermelhos emitidos da superfície da Terra e “devolve” a ela parte desse calor.

Os negacionistas dizem, ainda, que a concentração de CO2 na atmosfera já foi muito maior em outras ocasiões da história do planeta – e o homem sobreviveu. Um dos maiores especialistas em estudos climáticos do Brasil, o doutor em astrogeofísica Luiz Gylvan Meira Filho, rebate esse argumento.

“É verdade que, numa escala de tempo geológica, em milhões de anos, a concentração de CO2 foi mais alta ou mais baixa. Sempre variou. Mas a mudança do clima que preocupa agora é uma mudança numa escala de tempo extremamente rápida, de poucas décadas ou 100 anos”, destaca. “É extremamente grave por uma razão muito simples, sem catastrofismo: a civilização e a natureza estão adaptadas a um certo clima, mas se ele mudar muito rápido, como é o caso, não há tempo de a natureza se adaptar ao novo clima. Haverá prejuízos muito sérios.”

Concentração de CO2 é bem mais nociva que os fenômenos naturais

Meira Filho ressalta que a quantidade de CO2 na atmosfera ultrapassou níveis jamais vistos nos últimos 800 mil anos, conforme os registros verificados em perfurações em camadas profundas de gelo na Antártica ou na Groenlândia, que armazenam os traços históricos de concentração do gás.

É neste ponto que se acentua a maior discórdia entre os especialistas em mudanças climáticas e os negacionistas: segundo a comunidade científica especializada no tema, a elevação da concentração do CO2 é resultado direito da ação humana, pela poluição. Eles alegam que, sozinhos, os fenômenos naturais – como a variabilidade da radiação solar, os vulcões e o El Niño, entre outros – não explicam o aquecimento da temperatura global nos últimos anos, que tem se acentuado de maneira inédita.

“A variabilidade natural sempre existiu, mas no período recente, ela só explica um décimo de grau do aquecimento do planeta. De menos de um século para cá, a atividade humana está influenciando a variabilidade natural do clima, que sempre foi cíclica”, explica o climatologista e glaciologista francês Jean Jouzel, autoridade internacional no tema.

Greta é o “alvo errado”

Em 1950, a atividade humana gerava 1,5 bilhão de tonelada de CO2 por ano – desde então, esse número já é 21 vezes maior, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada à ONU. Por isso, a comunidade científica insiste em medidas urgentes para que todos os países diminuam as emissões de gases poluentes daqui para frente.

Com seus discursos severos, a jovem sueca Greta Thunberg se tornou o novo símbolo dessa luta – e entrou na linha de mira dos climatocéticos. “O problema não é Greta Thunberg, mas o aquecimento climático. Não podemos inverter a lógica. Atualmente, muitas pessoas estão se enganando de alvo”, alega Jouzel. “Não existe um catastrofismo, mas sim uma realidade. Se entrarmos nessa linha de não fazermos nada para não piorar o aquecimento global, a alta da temperatura será de mais 4% até o fim do século.”

Cientistas do IPCC apresentam relatório especial sobre os oceanos e as mundanças climaticas. 25/09/19 Captura de vídeo Intergovernmental Panel on Climate Change

Este é outro ponto de divergências. Os negacionistas frisam que o aumento de alguns graus na temperatura do planeta teria consequências bem menos dramáticas quanto indicam os climatologistas. Jouzel responde que tudo é uma questão de perspectiva: todos não sofrerão da mesma maneira. Tóquio ou Mumbai devem se preocupar mais com a elevação do nível dos oceanos, enquanto a região caribenha e a costa oeste americana, com o aumento dos tufões.

Poucos graus a mais fazem, sim, diferença

Além disso, Meira Filho ressalta que, por menor que seja, a elevação da temperatura impacta nas geleiras e calotas polares, ao contrário do que dizem os céticos. “Um, dois ou três graus faz diferença, sim, porque o gelo na Antártica, na Groelândia ou nas geleiras está num limiar. Se der uma pequena esquentada, ele desaparece”, insiste o astrogeofísico brasileiro. “Um exemplo simples: pegue uma foto do Cotopaxi, no Equador, há 30 anos, e outra hoje. Vemos claramente que diminuiu a quantidade de gelo no vulcão.”

No Brasil, o físico meteorologista Luís Carlos Molion, da Universidade Federal de Alagoas, ou o geógrafo Ricardo Felício, da USP, são referência na contestação do aquecimento global. No governo Bolsonaro, ganharam projeção – já foram até convidados para uma audiência pública no Senado para explicar sua visão sobre o tema. Na palestra, utilizaram frases de efeito e informações fora de contexto ou desatualizadas, na tentativa de comprovar a “farsa do aquecimento global”.

Comprovação científica

“O Molion e o Felício dizem que têm dados mostrando que a temperatura está esfriando. Quando você pede esses dados e pergunta se foram publicados, eles respondem que não, mas os têm. Isso não vale”, critica Meira Filho. “Se você faz um experimento científico, ele tem que poder ser reproduzido pelos colegas no futuro, em qualquer lugar do mundo.”

O francês Jean Jouzel não esconde a irritação com o tema, já que a comprovação científica da responsabilidade humana pelo aumento da temperatura do planeta é estabelecida pelo Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC) desde 2007. O órgão reúne os cientistas mais respeitados do mundo no tema e recebeu, naquele ano, o prêmio Nobel da Paz. Jouzel era o vice-presidente do painel – cargo que Meira Filho também ocupou, de 1996 a 2002.

“Não há cientistas que trabalham realmente sobre o clima que contestam as mudanças climáticas. Os que existem são como o Trump ou Bolsonaro: usam o assunto de maneira oportunista, porque se admitem que há uma realidade climática, terão de admitir também que existem implicações geopolíticas em decorrência delas”, analisa o climatologista.

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