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Descoberta em Paris, acrobata carioca hoje brilha nos palcos da Alemanha

A carioca Rosiris Garrido desembarcou há 22 anos na Alemanha para uma temporada com o Cirque du Soleil - e nunca mais voltou. Formada pela Escola Nacional de Circo do Rio, a artista foi descoberta durante uma apresentação em Paris. Hoje, sua arte ultrapassa as fronteiras do circo convencional.

Por Cristiane Ramalho, correspondente da RFI em Berlim

Rosiris tinha expectativa zero ao entrar no avião que a levaria para o Festival Demain, em Paris, naquele final dos anos 90. Ela sabia que o evento era uma vitrine e tanto, capaz de atrair grandes companhias. Mas jamais poderia imaginar que seu duo circense, feito com a parceira Marta Chaves, fosse render um convite para trabalhar no Cirque du Soleil.

“Eles nos viram, nos contrataram, e algumas semanas depois estávamos no Canadá, para fazer a criação do espetáculo. A estreia foi em Hamburgo, na Alemanha”, lembra a carioca, especializada em acrobacia aérea.

A formação de quatro anos na Escola Nacional de Circo do Rio – referência na América Latina -, certamente ajudou. Mesmo assim, foi um salto no escuro: “Eu só falava português. A primeira língua que aprendi foi o francês – por conta do circo. Depois, veio o inglês e, por último, o alemão”.

Voo próprio

No palco, o que contava mesmo era a linguagem do circo. O espetáculo era um “dinner show” – um jantar de quatro horas, feito em parceria entre um estrelado chef alemão e o Cirque du Soleil. “Ele entrava com a gastronomia, e o circo com o lado artístico”, lembra Rosiris.

Com um espetáculo moderno, a companhia já apresentava uma abordagem diferente do circo. “O Cirque du Soleil incluiu música, tirou os animais de cena e colocou os artistas na linha frente, com uma coreografia mais elaborada. Com a França e o Canadá, eles começaram uma grande mudança”, diz a acrobata.

Foram quatro anos de turnês, até a brasileira resolver alçar voo próprio. Um caminho natural, para quem estava em busca de novas técnicas e linguagens: “A Alemanha sempre deu essa possibilidade para o artista solo. Não é preciso fazer parte de uma companhia para seguir adiante”.

Hoje, Rosiris é uma artista múltipla. Seu trabalho mescla acrobacia aérea, dança, música, dramaturgia, vídeo, mímica e performances.“Minha pesquisa é nessa multidisciplinaridade. O wall dance, por exemplo, onde a gente usa a parece como chão, tem uma imagem muito semelhante a uma instalação. E traz toda uma nova direção entre o artista e o público”.

Para além do circo convencional

Logo as fronteiras reais começariam a se expandir também. “Passei a fazer trabalhos fora da Alemanha. A dança me levou para a França, Holanda, Suécia... E é legal poder trazer isso de volta para cá. Os alemães estão famintos dessa mistura circense com um pouco mais de dramaturgia e outras artes”.

Em seu último espetáculo solo, apresentado em Berlim no ano passado, a carioca levou ao palco “Tempo e(m) Movimento”, uma história inspirada no Retiro dos Artistas – que abriga artistas da terceira idade no Rio de Janeiro.

“É um espetáculo autobiográfico, onde eu trabalho com a imagem do envelhecimento na arte, para discutir como a gente se move tentando não repetir padrões e se renovar a cada fase da nossa vida”, explica. Irrequieta, com um olhar contemporâneo, Rosiris segue em busca de linguagens que possam ultrapassar o circo convencional – e assim dar ao público mais do que ele mesmo espera.

Algo mais difícil do que se pensa. “O circo nasceu com o freak show, e o público ainda quer ver o espetacular, o suspense, as pessoas ‘diferentes’ que fazem o que os outros não conseguem fazer”. Ir além disso é seu grande desafio.

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