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Traição de Trump aos curdos na Síria ameaça o mundo e pode custar sua reeleição

Por Alfredo Valladão

Os Estados Unidos traíram os seus aliados curdos na Síria. Políticos democratas e republicanos, muitos diplomatas e até militares do Pentágono estão furiosos. A retirada das forças especiais americanas estacionadas no nordeste sírio foi visto pelo mundo inteiro como um cheque em branco para o presidente turco Erdogan.

Ankara proclamava que seu exército estava pronto para invadir o país vizinho e criar um território tampão na fronteira de algumas dezenas de quilômetros, expulsando as milícias e também toda a população curda.

Sob pretexto de combater grupos “terroristas” do PKK (o velho partido nacionalista curdo), o presidente turco quer aterrorizar os curdos e promover uma limpeza étnica na região. A ideia é instalar populações e milícias árabes controladas pelo governo turco, vindas dos campos de refugiados na Turquia ou das regiões ocidentais da Síria.

O problema é que foram os milicianos curdos, com a ajuda das forças americanas, que fizeram o trabalho sujo, corpo a corpo, do combate aos terroristas do grupo “Estado Islâmico”, dito Daech. O Pentágono deve aos curdos a vitória militar. E agora, Trump decide abandoná-los em terreno aberto, enfrentando sozinhos as tropas turcas.

Não deu outra. A organização dos curdos sírios já anunciou que, nessas condições, não tinha meios de manter milhares de prisioneiros de Daech. E que, portanto, terroristas presos, experientes e vingativos, iam escapar e se espalhar pela região e até para a Europa e o mundo. A retirada americana e a ofensiva turca é um imenso pontapé num dos formigueiros mais letais do planeta.

Caleidoscópio violento

A Síria é um caleidoscópio de grupos armados lutando barbaramente entre si – e ainda por cima com o apoio de potências estrangeiras rivais: milícias xiitas e o Hezbollah libanês dependentes de Teerã, o pequeno exército do presidente Bashar Al-Assad que só se mantém graças à ajuda russa, uma variedade de grupos sunitas concorrentes armados pelos países do Golfo, a Turquia, ou o mercado negro, mais ou menos conectados com os movimentos radicais islamistas, o YPG curdo... e por aí vai.

A Síria está longe de estar estabilizada, e guerras, atentados e massacres vão continuar alegremente. Donald Trump acaba de criar mais confusão ainda.

À primeira vista, o presidente americano tem certa razão quando diz que já é hora de os Estados Unidos não se envolverem mais em conflitos tribais locais. Os americanos estão cansados de guerra e graças ao petróleo de xisto não precisam mais importar tanto do Oriente Médio.

Para eles, a região não é mais tão estratégica, e Washington não aguenta mais o papel de polícia global. Só que não é bem assim. Não há dúvida que o mundo árabe-muçulmano está estilhaçado por conflitos locais e tribais. Só que em cada uma dessas guerras, vizinhos poderosos e potências globais estão afundados até o pescoço, queiram ou não.

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A Síria é um pião no xadrez do Oriente-Médio e está muito longe de poder ser pacificada por quem quer que seja. Mas é um ponto chave onde Europa, Estados Unidos, Rússia, Irã, Arábia Saudita e Turquia se medem e definem a relação de forças.

Claro, a geopolítica não é um piquenique. Mas abandonar sem mais nem menos um importante aliado local, não é a melhor maneira de mostrar a própria determinação e confiabilidade. E isso custa muito caro no tabuleiro das relações entre potências.

O Império Romano durou cinco séculos porque explorava os seus estados tributários, mas também os defendia quando era necessário. Donald Trump quer mandar no mundo sem ter que pagar o preço, nem econômico nem da proteção. O establishment americano, no meio de um processo de impeachment do presidente, sabe que isso não pode dar certo.

O volúvel lourão até parece querer se arrepender. Já sentiu que a debandada síria poderia desvalorizar a palavra dos Estados Unidos no mundo e até custar a reeleição.

Alfredo Valladão é professor de Ciências Políticas da Sciences-Po de Paris

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