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Políticas corporativas de gênero atraem novos talentos, dizem advogadas brasileiras em Londres

A cobrança por responsabilidade social sobre as empresas é um tendência mundial. Os consumidores querem saber o que está por trás dos produtos que retiram das prateleiras. Ninguém quer levar para casa mercadorias que prejudiquem o meio ambiente, ou que desrespeitem   de qualquer forma que seja   as boas práticas ou direitos humanos básicos. Não é diferente entre os grandes prestadores de serviços.

Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

Duas sócias do escritório de advocacia brasileiro Mattos Filho, que acaba de organizar seu segundo seminário internacional sobre políticas corporativas de gênero, desta vez em Londres, afirmam que a estratégia das companhias para lidar com a diversidade é um importante vetor para atrair negócios e novos talentos.

Recentemente, um cliente importante quis saber quais eram as políticas de gênero do escritório e ainda condicionou o fechamento do contrato com a equipe se os sócios pudessem participar do programa de treinamento de uma semana a que os seus funcionários eram submetidos também.

"De vários anos para cá, a gente tem tido essa demanda de clientes, não só para mostrar as nossas políticas, grupos de afinidade, e como a gente tem cada vez buscado melhorar nas temáticas de diversidade e inclusão. A gente não consegue medir muitas vezes quantos negócios a mais a gente faz por tratar dessas temáticas e de sermos tão abertos nas temáticas de diversidade e inclusão. Mas a gente consegue perceber que deixa de talvez perder clientes ou trabalhos justamente porque temos essa temática”, afirma a sócia Camila Calais.

“Os clientes cobram isso no dia a dia. Eles querem ser atendidos. Eles querem ter essas pessoas dentro do escritório também”, completa.

Melhorar o ambiente de trabalho

A decisão de organizar esses seminários internacionais surgiu da necessidade empresarial de se aproximar de outros escritórios de advocacia nas cidades onde o Mattos Filho tinha representantes. O primeiro aconteceu em Nova York, no ano passado. Para atrair a concorrência, optou-se por colocar na pauta uma questão recorrente que afeta todas as empresas. Segundo Camila, o tratamento que se dá ao gênero não é apenas uma condição que começa a ser imposta pelos clientes, mas é uma forma de melhorar o ambiente de trabalho, de aumentar a produtividade e atrair novos talentos para o escritório.

"Um escritório que olha para a temática de mulheres, que tenha ambiente favorável à demandas especificas das mulheres, e que as acolhe de forma geral, se torna bastante atraente para os talentos femininos, que hoje, no direito, nas universidades de direito, são maioria. Nós queremos ter os melhores talentos para o escritório. Para tê-los, a gente precisa atrair todos os talentos e não apenas uma parte deles”, explica Camila.

Mais mulheres atuando

Nos últimos 10 anos, o Mattos Filho teve um crescimento de cerca de 130% em número total de profissionais que, hoje, passa de 1.300. No mesmo período, o número de mulheres no escritório subiu 168%. Em 2019, são 753 mulheres, entre advogadas e profissionais das quatro áreas do chamado backoffice (Financeiro, RH, Comunicação e Marketing e Tecnologia da Informação).

Entre os 102 sócios, elas ocupam uma fatia de 35% do total. O Comitê executivo, que reúne 11 sócios, tem 30% de mulheres. E entre os 5 diretores das áreas de backoffice, elas são quatro.

De acordo com Glaucia Lauletta, sócia há quase 30 anos, a política de gênero do escritório não é discurso.

"A diversidade está diretamente relacionada à alta performance. E a gente está num mercado em que a alta performance é condição sine qua non. Não é discurso. É aquilo que a gente aplica”, diz.

Glaucia defende as políticas voltadas para mulheres do escritório, que foi um dos primeiros a adotar a licença maternidade de seis meses, ainda em 2010, tem salas de amamentação e auxílio-creche, e que também contrata advogadas grávidas.

"Não podemos falar em desenvolvimento profissional de homens e mulheres sem falar em meritocracia, mas temos que enfrentar uma questão que ainda é presente. Sempre que se fala das mulheres que chegaram lá, dos role models (modelos), digamos assim, a gente sempre está falando das extraordinárias. E é natural que as extraordinárias cheguem mesmo lá. Agora, da mesma forma que existem homens muito bons, não necessariamente extraordinários, que têm o seu desenvolvimento profissional garantido, nós também queremos encontrar espaço para aquelas mulheres que são muito boas, que merecem crescer profissionalmente, sem necessariamente serem as extraordinárias”, destaca Glaucia.

Segundo ela, esses modelos no topo da pirâmide de comando da empresa devem ser vistos com cuidado, para que não pareçam inatingíveis.

"A base de homens e mulheres tem que olhar para cima e se identificar com os exemples que vêem lá. Se não, esses role models não vão atuar de maneira positiva, como incentivadores do crescimento profissional. Muito pelo contrário, como desestímulo para aqueles que vêem futuro no escritório e querem chegar à sociedade”, explica Glaucia.

O Mattos Filho foi vencedor na categoria “Jurídico”, na pesquisa “Mulheres na liderança” realizada pelo Instituto Ipsos em parceria com os jornais Valor Econômico, O Globo, as revistas Época e Marie Claire e a ONG Will (Women in Leadership in LatinAmerica) em 2019 no Brasil.

A cobrança por responsabilidade social sobre as empresas é um tendência mundial. Matt Chung/ Divulgação Mattos Filho

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